sexta-feira, 26 de maio de 2023

Reflexões

Acordei pensativa, incomum para uma segunda-feira. (Foi escrito em 22/05/2023)

Talvez seja resultado de uma noite mal dormida. Quem sabe porque comecei a ler a biografia de Elvis Presley ou por ter assistido o filme sobre a vida da modelo da Guess - Anna Nicole Smith. Gosto muito de biografias, porque gosto de gente. Estou começando a compreender Zeca Pagodinho quando ele canta: Deixa a vida me levar.

Brincadeiras à parte, começo a perceber como tudo flui naturalmente e de uma forma mais leve do que sempre acreditei que acontecia. Tenho percebido como complicamos demais as coisas que deveriam e são simples. Ja perdi as contas de quantas vezes li e ouvi pessoas dizendo: "Não desista de seus sonhos!"

Pois bem, aqui vou eu: Desista sim!

Tem sonhos que não valem a pena, nem o esforço e muito menos sua saúde. Tem sonho que pode tornar-se um pesadelo. Eu parei de insistir em caminhos tortuosos e complicados já faz um bom tempo e quer saber? Foi a melhor escolha. A vida deve ser leve!

"Para amar verdadeiramente a liberdade, é fundamental se apaixonar pela renúncia."

Quando visitei Florença e conheci a Academia de Belas Artes, vi de perto o trabalho dos alunos do curso de esculturas. Ouvi o seguinte relato quando expus minha dificuldade em esculpir: "A obra já está lá, você só precisa retirar o excesso." Pareceu tão simples. Minha mãe escreveu uma peça de teatro maravilhosa, ela sempre gosta de me mostrar seus textos. Quando lí, me emocionei muito, conta a vida de três mulheres que foram assassinadas. Perguntei a ela como surgiram os diálogos e ela me respondeu que tudo já estava lá, que ela só precisou transcrever.

Acontece exatamente o mesmo comigo em meus projetos, chego e olho pro espaço e os volumes e cores vão surgindo diante de mim, eu só preciso ajustar posteriormente, pequenos detalhes. É como se tudo já existisse e estivesse visível pra todos, sei que não é tão fácil, já que não consigo tirar o excesso dos blocos de mármore, como fazem os grandes mestres escultores. Me incomoda muito, alguns clientes insistirem em alterar o projeto, quando vejo claramente que aquela não é a melhor opção e mesmo assim, sou forçada a ceder, compreendendo a necessidade que eles sentem em fazer parte do processo criativo.

Por que estou dizendo disso?

Pra que compreendamos que da mesma forma, saímos atropelando a vida com nossas insistências e imediatismo. Não se trata de cruzar os braços e deixar que tudo corra a revelia. Trata-se tão somente de fazer como um surfista, que ao escolher sua onda, desliza suavemente sobre as aguas, tirando melhor proveito do que ela tem para lhe oferecer. Escolha a sua e apenas dance sobre ela. Tente-se manter de pé, em equilíbrio, ouse quando sentir que é o momento certo e saiba quando não é prudente se arriscar em manobras. No intervalo, aproveite as surpresas!

Que saudades do tempo que os amigos chegavam em casa, sem avisar ou quando uma carta vinha contando novidades de longe. O telefone muitas vezes trazia a voz de alguém querido, quando tocava sem um pedido prévio. O abraço e o beijo aconteciam naturalmente e ninguém ia para prisão por isso. Quando não era recíproco, era claro e sabido e todos se desvencilhavam dos incovenientes. Hoje tudo está confuso e chato, não há mais o inesperado que emociona.

O que nos pega desprevenidos agora, são só as más notícias.

segunda-feira, 9 de março de 2020

08 de Março - Dia Internacional da Mulher

Vou iniciar o texto fazendo uma confissão: tenho preguiça do feminismo arraigado e mais ainda da palavra, empoderada.
Me absolvam, por caridade!

Minha admiração é pelo sensível e intuitivo.
Pelo contraponto feminino -anima- que há em todo masculino.

Fisiologicamente, o macho secreta tanto hormônios masculinos, como femininos, assim como a fêmea.
Psicologicamente, características femininas e masculinas são encontradas em ambos os sexos.

A anima (feminino) e o animus (masculino), coabitam nosso inconsciente, independente de nosso sexo biológico e de nossas opções sexuais. Teoria Junguiana

O inconsciente do homem encontra expressão com personalidade interior feminina (anima), assim como no inconsciente da mulher, esse aspecto é expresso com personalidade interna masculina (animus).

Para que o equilíbrio entre os opostos nos favoreça é preciso que haja acolhimento e desenvolvimento dos dois polos, feminino e masculino.

Quem conhece alguma coisa sobre o TAO (todo), sabe que a luz só existe, porque há escuridão e assim é sucessivamente com os opostos.
Que a totalidade só é possível com a junção e o justo equilíbrio das forças opostas presentes no Universo: yin e yang.
O feminino só é fantástico, porque o masculino também é maravilhoso.

Particularmente, fui privilegiada pela presença em casa de três irmãos, com eles desenvolvi características masculinas brincando com time de botões, jogos de finca e bolinhas de gude. Aprendi a atirar com espingardas de chumbo e a empinar pipas.
Tudo isto me foi e ainda é útil.
Não desprezo conhecimento algum.

Em contrapartida, aprendi admirar homens mais sensíveis, com alma feminina marcante.

Para nos integrarmos, para sermos completos, mais seguros e fortes é fundamental que estejamos abertos aos nossos princípios femininos e masculinos.

O Universo se manifesta através de dois polos opostos.
Nossa completude depende desta inteiração, desta integridade.
O sagrado feminino e o sagrado masculino que habitam em você, em mim, em todos nós.

Desta forma, neste especial Dia Internacional da Mulher, eu celebro e consagro o feminino que existe em cada um de nós, seja homem ou mulher.

Feliz existir, hoje, amanhã e todos os dias de nossas preciosas vidas.

Um abraço

sábado, 28 de outubro de 2017

Fim da relação - objeto de amor temporariamente desligado ou fora da área de cobertura

Você liga e ouve a mensagem: 'este número está temporariamente desligado ou fora da área de cobertura'... Seu coração dispara e o cérebro gira em piruetas tentando entender o porquê deste desaparecimento. Mas se a mensagem é: 'este número de telefone não existe', você literalmente pira e entra em parafusos... Acabou! E não é fácil admitir o fim de uma relação, ao menos um sai muito machucado, quando o ponto final não vem com uma explicação plausível em uma conversa franca e madura. A famosa, DR (discutindo a relação), de quem todos tem um preconceito exagerado pode facilitar a vida, mas as pessoas se sentem sem disposição para falar e ouvir. Ninguém quer encarar seu 'eu no outro'... Isto é ruim, para todos os envolvidos.

Sou totalmente a favor das DRs, se não fosse, não seria psicanalista, posto que a psicanálise é a 'cura pela fala'.

Mesmo aquela parte bem chata das discussões com o outro, é importante, pelo menos para alguma das partes. E relacionamento não é troca? O chato vai se alternando, um dia um, no outro dia, o outro. Alguns mais que os outros... (risos)

Então chega de dar voltas, vamos encarar o doloroso 'The End'

“Não se morre de dor. Enquanto há dor, também temos as forças disponíveis para combatê-la e continuar a viver.” J.D.Nasio

Se a dor da perda do objeto de amor não parece definitiva. Ou seja, se o objeto do meu amor continua existindo, mas se encontra de algum modo inacessível, o processo da vivência desta dor é um pouco distinto do enlutado, embora a saída seja a mesma.
No fim das contas, precisamos desfazer todo o investimento e ir retirando um a um todos os retalhos de nós mesmos, que fomos costurando à imagem idealizada do objeto perdido.

Como dissemos na matéria anterior, perder é um exercício muito doloroso. Isto se deve ao fato do inconsciente não esquecer uma única dor. Ele vai sobrepondo uma a outra e cada vez que nos falta algo, ficamos novamente reféns da dor primária, quando perdemos o seio e o olhar materno. Por isso, muitas vezes parecemos tão infantis diante da dor.

Em uma palestra proferida por Dr. David E. Zimerman (1930-2014), ele dizia de um fato ocorrido com uma analisanda. “Há alguns meses, aquela jovem linda e bem sucedida vinha contando sobre suas decepções amorosas com o namorado, que a cada dia se tornava menos atraente e encantador, chegando ao ponto de se referir a ele como: o babaca. A cada sessão ela se mostrava mais impaciente e disposta a se livrar daquele relacionamento que não oferecia nenhum prazer e muitos aborrecimentos. Até quem um dia, adentrou o consultório desfigurada, sem a elegância e o cuidado de sempre. Tinha os olhos inchados e vermelhos e em voz trêmula proferiu a frase: ‘Meu namorado me deixou!’ Desabou num choro de lamento e eu no alto de meus mais de oitenta anos e autorizado por minha experiência, respondi: "Que ótimo, você se livrou do babaca!”

Ao contrário do que muitos podem pensar, ele não estava sendo cruel ou insensível, ao contrário, estava sendo terapêutico! Ela chegaria àquela mesma conclusão logo adiante, mas naquele momento a dor da perda potencializada por todas as outras dores arquivadas em seu inconsciente, a impedia de raciocinar com clareza.

Não é incomum a gente sofrer exageradamente por algo que mais tarde, nos sentimos felizes em ter perdido, seja um emprego, namorado, viagem ou o que for. Mas no exato momento da perda, a dor é mesmo insuportável, a ponto de nos cegar.
E o motivo de tudo isto, é porque somos nós mesmos quem construímos uma teia que nos liga ao nosso objeto do desejo, o mesmo que nos alimenta com projeções cheias de imaginação. Ao longo do tempo em que esta relação vai se consolidando, vamos projetando um no outro, todos os nossos desejos e anseios, cheios de expectativas a se cumprirem.
À medida que a convivência vai se acentuando, vamos encobrindo as pequenas falhas com desculpas que inventamos para enganar a nós mesmos. Vamos construindo um personagem aos nossos moldes, que passa a ter muito mais de nós do que daquele que verdadeiramente desconhecemos. Perder este personagem é perder um pedaço de nós. E se este personagem, tão nosso, tão nós, agora se dedica a outro, é ainda mais doloroso. Eu poderia voltar a falar sobre as ‘fantasias inconscientes’ e sobre como vamos vestindo o outro com nossos ‘retalhos’, tecidos e bordados com imaginações, projeções, idealizações, mas o texto ficaria muito longo e já falamos sobre isto em matérias anteriores a esta.

Então vamos enfrentar a dor de peito aberto, porque não há mesmo outro remédio... A não ser o tempo!

A reação imediata a uma dor insuportável é um grito, que vamos substituindo por palavras. Falar de sua dor é um excelente alento, mas escolha bem seu interlocutor. Não há necessidade de ser um ‘expert’ no assunto, mas é bom que seja alguém leal e discreto.
E por que falar desta dor? A resposta é bem simples: porque é só na dor, que se encontra aquele, que não está mais aqui.
Falar... Falar... Falar... Até que se esgote a mágoa, a dor, a ausência, o não dito, o não compreendido. Até que eu desconstrua e desfaça tudo o que bordei sobre a pele do outro. Até que vá se amenizando... Até passar, porque acredite, passa! Mas não será a última vez, amar dói! E não existe um antídoto, vacina ou blindagem, acontece com você, comigo e com todo mundo.

Quem evita se entregar a uma relação por medo da dor, não está se preservando, está se ausentando do movimento que é a própria vida. E aos que emendam uma relação na outra, como forma de curar uma ferida, estão só acumulando milhas para uma dor potencializada. Uma hora a conta chega!

Então, qual seria a saída?

Não existe uma fórmula mágica, quem se entrega ao amor, assume os riscos. Mas podemos dizer que manter certa independência é um bom caminho.
Daqui em diante, me ausento do posto de psicanalista e me coloco em lugar comum.

A discrição nas relações é mais saudável. Fazer declarações apaixonadas em redes sociais me parece um grito de desespero, como último suspiro, um sinal de que: 'o gato subiu no telhado’. Ao contrário das relações de amizade e de laços familiares, as relações amorosas em média são menos duradouras e encarar as pessoas depois de um: ‘Te amo pra sempre’, seguido de um fim dramático na relação é meio desconcertante.

Conservar atividades independentes do parceiro e ter amigos incomuns, também é uma opção interessante. Quando o ciclo de convivência é o mesmo na totalidade, o assunto será sempre, o fim do relacionamento.

Trabalhar juntos é a pior escolha, porque o trabalho é uma ocupação terapêutica, pelo fato de que produzir algo e se sentir útil faz muito bem para o ego, que precisa ser fortalecido com o que há de mais autêntico e verdadeiro, neste momento.

Conservar interesse por coisas, lugares, cursos diferentes do outro também é importante. Aprender coisas novas e experimentar algo inédito é uma excelente pedida. Enfim, se você se conservar inteiro, será mais fácil se despedir daquele personagem que você criou e construiu com seus pedacinhos dourados. E quem sabe depois de algum tempo, possa surgir uma relação de amizade, mais autêntica e menos fantasiosa.

Em resumo, tenha uma vida interessante e mantenha em você, o foco principal.

Você é a pessoa mais importante de sua vida!






sábado, 21 de outubro de 2017

Luto – a perda de nosso objeto de amor



O maior medo do ser humano consiste no fim do seu desejo!

Desejo este que tem como objetivo, a satisfação, que permite a descarga da energia excedente em nossos neurônios, além do que é considerado suportável.
Não haverá jamais uma descarga completa. Ao contrário do que se possa imaginar, seria desastroso se houvesse.

É importante mencionar também, que o desejo é a cura para nossas angústias.

O que estabiliza o aparelho psíquico é a insatisfação na medida suportável. Se ela ao contrário for grande ou se a satisfação é exacerbada, nosso desejo perde seu eixo de equilíbrio e a dor aparece. Este desequilíbrio no eixo central desejante é um quadro muito próximo do que vem a ser o transtorno bipolar ou maníaco-depressivo.
Para organizar nosso desejo elegemos um objeto de amor e depositamos nele, uma grande parte inconsciente de nós mesmos. (falamos sobre isto na matéria: A escolha do ser amado).

Mas o que acontece quando perdemos nosso objeto de amor?

Perder é um exercício difícil ao longo de toda nossa existência. Perdemos o seio da mãe e desde então, nossas perdas vem se sobrepondo já que o inconsciente conserva a dor, ele não a esquece.

O amado é considerado insubstituível, sempre lhe atribuímos um valor superestimado, se ele desaparece, esta convicção se torna ainda mais dolorosa. Se o desaparecimento é provocado pela sua morte, o caráter definitivo de sua ausência dá início ao longo caminho do luto.
O luto é o aprendizado de uma vida marcada pela ausência.

Em psicanálise dizemos que: “A imagem do objeto perdido, sua sombra recaí sobre o eu e encobre parte dele”.

A identificação com o objeto perdido é uma reação natural. Com o golpe da perda, o ego numa tentativa de preservar e conservar viva parte deste objeto que se foi, absorve traços dele. É um esforço para manter vivo, aquele que não está mais neste mundo.
Os rituais que cada um encontra, como ir à missa, ao cemitério, ao centro espírita, são maneiras de buscar um consolo, um alívio para a dor. É como uma maneira para dizer a si mesmo que: “apesar de ele não estar mais aqui, se encontra vivo, dentro de mim”.

Geralmente o luto é um longo e inevitável caminho, podendo durar semanas, meses, anos ou uma vida inteira, se ele se tornar crônico. Não há uma regra e um modo de prever sua duração, dependerá de cada um e de sua singularidade. Ele começa com a dor da perda de um ente querido e termina com uma aceitação serena de sua ausência física.
É o aprendizado da convivência com esta falta permanente e definitiva.

No luto, além da dor da perda, podemos sentir ódio contra o morto e também culpa, por sentir este ódio. E todas estas reações tem uma única intenção: manter viva a imagem mental do desaparecido, como se a lembrança pudesse compensar de alguma forma a ausência real. Conservar de algum modo estes sentimentos, me garante a presença do ente querido. Mas é necessário que seja feito o ‘trabalho do luto’, para que esta dor não se eternize, tornando crônico, este estado doloroso.

Geralmente o luto possui cinco estágios:

- NEGAÇÃO é a primeira reação e a mais dolorosa. É comum a pessoa se isolar e não querer tocar no assunto ou não encarar nada que deixe claro, este fato incontestável. A recusa em admitir a perda pode provocar alucinações nos enlutados. É comum relatos de pessoas que ouvem passos, vozes ou mesmo que veem imagens dos entes falecidos.

- RAIVA vem logo a seguir, surge um sentimento de revolta, um descontrole emocional, muitos ressentimentos. O sujeito se sente injustiçado e é comum a pessoa se perguntar: Por que comigo? Se existem tantas pessoas ruins no mundo, porque elas não estão sofrendo em meu lugar ou não morreram no lugar do meu objeto de amor?

- BARGANHA. É uma fase de negociação, principalmente com Deus. Como se houvesse uma maneira de fazer algo para se redimir e reverter o acontecido. Surgem pensamentos como: ‘Se eu tivesse sido uma pessoa melhor’... Surgem as promessas, pactos, sacrifícios e acordos, numa tentativa de que tudo volte a ser como antes. É comum a pessoa se portar de forma mais humilde, mais gentil.

- DEPRESSÃO é a fase onde a pessoa fica mais introspectiva, se isola e sente-se mais melancólica. Finalmente admite sua impotência diante dos fatos e sabe que a vida terá que seguir apesar de sua perda. Sentimentos de desânimo, apatia e tristeza são comuns.

- ACEITAÇÃO é o estágio que determina o fim do desespero. A realidade se impõe, a pessoa consegue enxergar os fatos como realmente são. Não há mais a negação e nem a revolta. É o fim das negociações e o estado de depressão é substituído pela aceitação, o sujeito está pronto para aceitar por fim, sua perda.

As fases podem ocorrer em outra ordem e podem pular algum estágio, mas haverá ao menos dois destes, segundo a psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross.
Aceitar o ciclo da vida: nascer, crescer, reproduzir e morrer não é tarefa tão simples, como a biologia expõe em livros. Quando o trauma da perda atravessa nosso caminho, precisamos de ajuda para retomar nossos planos e reesignificar nossa vida, que deverá seguir sempre adiante a despeito de toda e qualquer dor.
Todo o investimento feito em direção ao objeto de amor precisa ser retirado, preservando nosso ego. Todos os traços inconscientes depositados no objeto precisam voltar ao seu ponto de origem, intactos, para que o sujeito consiga direcionar novamente seu desejo para outro objeto.

Na próxima matéria vamos falar da perda de um objeto de amor, que permanece vivo, embora não esteja disponível ou acessível.


domingo, 26 de abril de 2015

A dor psíquica.

Assim como acreditamos erroneamente que a sensação de dor provocada por um ferimento na perna, se localiza nesta parte do corpo, também acreditamos de maneira equivocada que a dor psíquica se deve a perda da pessoa amada.


Não é a ausência do outro que provoca dor, mas os efeitos desta falta em mim.

Porque aquele que refletia minhas imagens não se encontra mais em minha presença.

O que provoca este transtorno interno é o desmoronamento da fantasia que eu teci em relação ao ser amado.

A dor não é pela perda do amado, mas pela quebra do que me ligava a ele.
(Os espaços são propositais, significa que é necessário um tempo para absorver as informações, assim como é necessário um tempo para vivermos a perda e tomarmos consciência de nós, sós e inteiros.)

Assim, aquele que organizava e freava os meus desejos não existe mais. Desta feita meu desejo não tem mais eixo. É um desejo louco, pois perdeu seu objeto.
A dor é pois, o encontro do sujeito com seu desejo enlouquecido e desnorteado. Esta desmedida invasão de tensão interna provocada por um desejo que não possui mais um objeto organizador que ao mesmo tempo que instigava, colocava freio e limite a este desejo, tornando minhas frustrações toleráveis na medida exata.

"E agora, José?"

domingo, 5 de abril de 2015

A dor de amor.

Não foi por acaso que eu me afastei do blog, nem foi por tantas desculpas que eu disse a mim mesma enquanto os dias iam passando, foi pelo fato incontestável de tentar evitar a dor, ou ainda que só o assunto sobre a dor. É o que todos nós tentamos ao longo de nossa existência, afastar os conteúdos dolorosos. Mas não há como fugir dela, é nossa condição de ser humano, às vezes a evitação acaba por provocar ainda mais dor, chega uma hora que é preciso encará-la de frente. Então, avante! Vamos com o assunto, rumo a dor de amor, ou a dor da perda de nosso objeto de amor.

No post anterior falamos da fantasia, aquela mesma que tecemos entre o conteúdo de nosso inconsciente e a pessoa viva de nosso amado, uma construção de mil imagens com vários significantes suscitados pela força do desejo que o 'Outro' provoca em mim e que eu acendo nele e que nos mantém em união. Esta fantasia que ao mesmo tempo evoca e desperta o desejo, tem a função de regular o movimento desejante.

“A fantasia do amado satisfaz o desejo, saciando-o parcialmente.”
E aqui começamos a compreender que nosso eleito deixa de ser um ser vivo exterior e passa a fazer morada também no interior de nós. Não é de todo um exagero puramente romântico as frases que ouvimos, como por exemplo:
_‘ Ele faz parte de mim. ’
_‘ É como se ele e eu fôssemos um só. ’
Sim, aquele que mora dentro de mim é um Outro construído a partir de conteúdos de mim mesmo que eu desconheço.(inconscientes)
Assim, o objeto fantasiado tem a função de domar nosso desejo, tornando-o insatisfeito no limite do tolerável.

Desta forma, meu eleito é ao mesmo tempo uma pessoa de carne e osso fora de mim e uma fantasia dentro de mim. Destas duas formas, a minha fantasia é que vai dominar a cena, ou seja, o que eu sinto e penso e experimento em relação ao ser amado é determinado pela figura que eu construí e teci ao longo do tempo.

Eu só enxergo o que está tecido entre nós, eu só o vejo e o escuto dentro da teia que envolve a sua imagem atrelada à minha. Não seria incorreto afirmar que nós nos amamos e nos odiamos no outro, por meio dele e do que nos liga a ele.

“Eu me vejo e me sinto segundo as imagens que o outro me envia.”
E quais seriam estas imagens?
. Imagens exaltantes de nós mesmos, que reforçam nosso amor narcísico.
. Imagens decepcionantes que alimentam a repulsa por nós mesmos.
. Imagens de submissão e dependência em relação ao amado que provoca nossa angústia.
É como um caleidoscópio que reflete as imagens com base em fragmentos do nosso eleito e de nós mesmos entrelaçados e mutantes, sempre se alterando e apresentando novas configurações. A fase da relação em que o encantamento pelo outro está em evidência é aquela em que o amor narcísico fica reforçado. Ouvimos elogios o tempo e somos cobertos por carinho. Depois, a fase em que o amado começa a nos decepcionar e por vezes nos aponta defeitos é aquela em que nossa auto estima é golpeada e passamos por uma desvalorização de nós mesmos. E por fim quando nos percebemos submissos e dependentes de nosso eleito, mediante a ameaça da perda deste objeto, é quando surge a angústia.
É neste momento que aparece a dor!

E desta dor falaremos no próximo post, até lá!

quarta-feira, 4 de março de 2015

A escolha do ser amado

Já mencionei minha decepção ao descobrir que a paixão obedece a uma reação química do corpo físico. Ela se instala em nosso cérebro em apenas seis milésimos de segundos, antes que o córtex pré-frontal tenha alguma ação para promover julgamentos e barramentos. Não é raro ver casais estranhíssimos morrendo de amores por ai! E não censure ninguém, porque pode acontecer a qualquer um de nós. Namorar o esquisitão da turma pode ser bem compreensível mesmo para a garota mais descolada do pedaço.
É claro que esta escolha não é aleatória, algum gatilho foi disparado vindo do primeiro objeto de amor em sua direção. Pode ser a voz, o cheiro, o jeito de falar, de andar, um traço da personalidade ou vários e até a aparência física. Não é por acaso que o perfil das namoradas é sempre o mesmo e lembram sempre a mamãe ou que também podem ser exatamente o oposto dela, o que não deixa de apontar na mesma direção, porque a negação é tão somente um mecanismo de defesa.

Mas afinal, quem é este a quem eu dedico o meu amor, considerando-o único e insubstituível? A resposta pode parecer confusa, mas é exatamente esta: “É um ser misto, composto ao mesmo tempo por este ser vivo e definido que se encontra diante de mim e pelo seu duplo interno impresso em mim.”

O amor passa pela transformação de um ser exterior em um duplo interior, que passa a fazer parte de nós mesmos. Freud dizia que o ser amado é acima de tudo um personagem psíquico, diferente da pessoa real. Ele é antes de tudo, uma parte ignorada e inconsciente de nós mesmos. Lacan encontra em seus matemas, uma expressão: ‘objeto a’, para designar o que nós ignoramos desta presença do outro amado em nós, este duplo psíquico que se funde ao ego, se a pessoa do amado nos deixa definitivamente. Mas ainda não vamos falar da dor, vamos por ora, falar de amor. Vamos descobrir como construímos com imagens e representações simbólicas, o nosso amado.

É comum atribuirmos ao nosso eleito o poder de satisfazer nossos desejos e nos proporcionar prazer. Nesta ilusão, demoramos um tantinho até perceber que sua presença em nossa vida traz também insatisfação. Ao mesmo tempo em que ele acende nossos desejos, não pode e não consegue satisfazê-los em sua plenitude. E mais que isso, sendo neurótico, ele também não quer realizá-los. Ele é ao mesmo tempo o excitante do meu desejo e o objeto que só o satisfaz parcialmente. Começa a construção de um duplo interno, aquele que ‘eu imagino’ que poderá me satisfazer plenamente. Embora isso não seja possível, lá vamos nós mais uma vez, colar figurinhas em cima do nosso eleito, tentando transformá-lo no sujeito perfeito. Mudamos seu corte de cabelo, corrigimos o seu sotaque e vamos aos poucos trazendo imagens de representações muitos particulares de nós mesmos e colando sobre este outro. Não se engane ele também está construindo você. E assim, o nosso eleito vai se tornando um duplo interno, em parte costumizado por nós, em parte nós mesmos, costurados em bordados a ele. E o que é mais confuso ainda, nós o impregnamos de uma parte nossa, que nós mesmos desconhecemos, pois se trata de inconsciente puro. Podemos assim, dizer que somos seis ao todo; o ele, o ele desconhecido, o eu desconhecido nele. E o eu, o eu desconhecido e o ele desconhecido em mim. Não é muita gente pra um casal só? Não,...existem muitos mais outros do que nossa vã filosofia possa imaginar! (pausa para risos). Sei que posso parecer irônica, mas é que o bom humor é essencial para não levarmos tudo tão a sério.

O amor sem alegria, não me interessa. E a você?
Vou me despedir com esta pergunta, pense sobre isto! Abraços e até.