sábado, 29 de novembro de 2014

Qual é o propósito do blog: ´Bom dia, Neurose´?


Desde que Freud nos apresentou a ´cura pela fala´, já se passaram mais de cem anos. Inúmeras contribuições de outros nomes dentro da psiquiatria, psicologia e psicanálise, possibilitam uma atualização constante de conceitos e formulações. Assim, se popularizou a ciência da psicanálise, possibilitando uma interação entre leigos e teóricos, onde todos saem ganhando.

A intenção do blog é comentar alguns conceitos freudianos, numa linguagem que não deixe de ser técnica, porque é psicanalítica, mas que também não se afaste muito do limite que permita a qualquer interessado fazer uso da leitura, de uma forma que seja além de compreensível, leve e quando possível bem humorada.
Isso porque podemos sentir dor e sofrer sem fazer disto um rio de lágrimas ou um drama mexicano.

O fato de eu considerar a psicanálise libertadora me faz sentir vontade de dividir esta experiência com todos. Acredito que quanto mais pessoas livres e felizes houver, mais fáceis serão as relações em todas as suas conexões, de forma que de certa maneira, o mundo todo esteja mais fácil de lidar, mais agradável em convivência.
As opiniões serão sempre bem vindas. Lembrando apenas que como uma profissional da área psicanalítica e por acreditar nesta ciência, serei fiel aos conceitos, na medida em que eu os compreendo e os aplico não só em meu consultório, mas em minha vida pessoal.

Antes de segurar na mão de alguém para conduzi-lo por um caminho, foi necessário que eu mesma fizesse esta trilha. Foi imprescindível que eu descobrisse a dor de pisar sobre espinhos. Que curasse meus arranhões pelos tropeços e que aprendesse a refazer trajetos equivocados, assumindo as responsabilidades pelos meus erros. Só assim, desfrutando da comemoração merecida dos meus acertos e vibrando em cada vitória e a cada etapa vencida. A construção deste caminho, mais do que terapêutica, tem a função de nos lembrar de nossa condição humana, onde tudo que vem do outro, passa por mim e precisa da minha permissão para acontecer.

Embora eu não tenha o controle de nada e sobre ninguém, eu tenho sempre a opção da escolha!

SEJA BEM VINDO!

FREUD E A INVENÇÃO DA PSICANÁLISE



Freud se formou em medicina e se especializou em Neurologia. Em 1885, então, com 29 anos, partiu para Paris para encontrar o maior neurologista da época: Jean-Martin Charcot. Nesta época um número entre cinco e seis mil mulheres estavam internadas em SALPÉTRIÈRE, um hospital/hospício. Trancafiadas no setor das incuráveis, as histéricas eram abandonadas seminuas e imundas, recebendo como alimentação uma sopa fria através de grades, como numa prisão.
Para tentar compreender os sintomas, Charcot começa um trabalho com a hipnose e consegue fazer com que paralisias e contrações desapareçam por um determinado tempo. Freud se sente profundamente influenciado por Charcot e seus métodos, nota que havia entre médico e pacientes um sentimento de ligação intensa e então faz uma ponte entre a histeria e a sexualidade. Ele queima todas as suas anotações feitas em quatorze anos de estudo para começar do zero.
Condenadas a se tornarem esposas muito jovens ainda e de uma forma rígida, como suas mães, as jovens da alta sociedade Vienense aspiravam outra vida, mas ninguém as ouvia. Incapazes de aceitar seus destinos, elas adoeciam. A histeria é a linguagem desse desejo refreado no âmbito da razão.
Dr. Josef Breuer, tratou por dois anos uma jovem, que após ser hipnotizada falava sobre seus desejos e angustias, podemos dizer que esta foi a primeira paciente analisada do mundo. Junto com Breuer, tendo acompanhado de perto seu trabalho com Anna O. (nome fictício para preservar a identidade da paciente, Bertha Papenheim), Freud lança o livro: “Estudos sobre a Histeria”, com várias histórias de casos, mostrando os resultados obtidos pelo método catártico, uma terapia através da fala, mas que ainda não era psicanálise. Alguns anos depois de abrir seu consultório particular, recebendo na grande maioria de seus pacientes, mulheres da burguesia vienense com doenças nervosas, neurastenia e histeria, ele atende Fanny Mozer (1889), que ordena que ele não se mexesse e que a deixasse falar: _“Não fale comigo, não me toque, escute-me”. Nascia assim, a ´cura pela fala´.
Sofre-se com coisas que vêm de si mesmo, muda-se completamente o rumo das coisas e o sujeito passa a questionar a si próprio. Os problemas não são causados por outro fora de mim, mas por outro, dentro de mim. Esta é a revolução Freudiana e a psicanálise propriamente dita. Tornamos-nos prisioneiros de nossas próprias armadilhas psíquicas, de nossos disfarces e nossas máscaras. Somos nós quem criamos nossas amarras e não os outros a quem teimamos em culpar pelas nossas infelicidades e insucessos. E isto é ótimo, porque sinaliza que a solução também certamente se encontra em nós. Somos nós quem guardamos as chaves de nossas prisões, somos prisioneiros de nós mesmos, mas se podemos nos trancar, podemos também nos libertar!