quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Na trilha do amor


No texto anterior, concluímos que o amor não é natural, que se trata de uma invenção do homem, assim como os deuses, a democracia e a roda. O amor é produto da cultura humana, um dos temas mais abordados nas manifestações artísticas de forma geral, como o cinema, a literatura, música, fotografia e outras. Vimos ainda que o amor é um aprendizado, aprendemos a amar sendo amados e esta experiência acontece dentro do seio familiar mais íntimo, junto aos pais e irmãos, por exemplo. Falamos também do reconhecimento que a mãe e a família proporcionam a criança, que passa a integrar um grupo, no qual ela se sente segura e protegida.

“A relação de proteger e ser protegido, é essencial para que aconteça o amor.”

Aqui, quero abrir um espaço para comentar uma parábola infantil que acredito pode exemplificar de forma clara, este ponto. Lembram-se da estória do patinho feio? Ele nasceu com uma pelagem acinzentada, enquanto seus irmãos eram branquinhos, tinha um pescoço muito comprimido em comparação com os outros. No lago, era um desastre para nadar, todo desengonçado e por isso, ele cresceu sem o reconhecimento de seus pares, era sempre deixado de lado pela mãe e os irmãos. Vivia triste e cabisbaixo, até se deparar com um bando de filhotes de cisnes, que se pareciam muito com ele. Passou a acompanhar estes filhotes, andava e nadava junto deles. Com o tempo suas penas se tornaram negras, seu pescoço foi alongando e ele se tornou um lindo cisne negro. Era a própria figura da elegância, principalmente quando deslizava pelas águas. De triste passou a ser altivo e de tão lindo, agora causava orgulho a sua mãe e a seus irmãos, que no fundo, até sentiam uma pontinha de inveja dele. (risos)

“Só quando duas pessoas se percebem é que pode existir alegria, contentamento e amor.”

Agora vamos retomar daqui, de onde paramos, quando eu mencionei que este acolhimento inicial e esta forma de sermos cuidados e amados, fica impresso em nós e vai servir de modelo usado por toda a nossa vida em todas as futuras relações. Pois bem, vocês se lembram de eu dizer que, mesmo os irmãos, ainda que gêmeos, não irão assimilar esta experiência de uma mesma forma, com um mesmo registro, logo, cada um de nós aprende o amor, de uma maneira bem particular e diferente do outro. Tem algo mais que aprendemos com nossa mãe, no início de nossas vidas e que também seguirá esta subjetividade, trata-se da linguagem. Isto se tornará determinante em nossas vidas, porque a mãe vai nominar o mundo pra nós e vamos arquivar os registros destes signos, destas imagens, associando sentimentos em relação às palavras que vamos memorizando. Cada um de nós terá para cada palavra aprendida um valor e uma lembrança diferente e por isso, a linguagem muitas vezes se torna um ponto de falha na comunicação, mas também um ponto de possibilidade para que se alcance o outro. Nos nossos relacionamentos esperamos que este outro não só compreenda o que estamos dizendo, mas que ele também seja capaz de decifrar os sentimentos por trás de nossos discursos. Acontece que os registros nem sempre coincidem ou se harmonizam e se não houver nestes encontros um bom jogo de cintura, uma diplomacia afinada, as relações ficam comprometidas.

Quero acrescentar também a este texto uma observação quanto àquelas pessoas que não tiveram uma família estruturada como imaginamos ser ideal. Aos que não foram amparados por uma mãe suficientemente boa, como disse Donald Winnicott ou ainda aos que tiveram uma mãe tóxica, dessas que sufocam e superprotegem, aquela de quem tememos o desaparecimento, mas de quem não desejamos a presença. Seria desastroso se não fossemos capazes de superar e vencer dificuldades, não é mesmo? Mas felizmente somos em maior ou menor grau, resilientes. E o que vem a ser isto? A resiliência é um conceito emprestado pela Física e pela Engenharia, que a define assim: "propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão causadora da deformação elástica". Ex: Uma mola que você pode esticar, e que irá voltar ao seu estado normal, quando cessar o movimento. O termo migrou do mundo da física para a área comportamental. No campo das relações humanas, é compreendido como um processo que excede a simples superação de experiências, já que permite ao indivíduo sair fortalecido por elas. Muitas vezes, pessoas com uma infância difícil, se tornam adultos mais flexíveis e com uma tolerância extra, vamos dizer assim. É bom que se saiba, não existem regras em psicanálise, a subjetividade e particularidade de cada história é que se tornou o termo geral. A psicanálise é a clínica do singular, não de um modelo. É uma ciência que sempre trouxe confusão a uma ordem pré-estabelecida, razão pela qual foi proibida em países tirânicos. Onde houver ditadura, a psicanálise será excluída. Ela não prega uma visão de mundo, ela ao contrário, coloca em questões, todas as visões do mundo, ela fala de uma felicidade, que não conseguimos expressar em palavras, ela nos oferta, o indizível! Ela apresenta a cada sujeito, uma oportunidade e uma chance de transformar sua maneira de lidar com sua história, independente dos episódios menos felizes, das perdas e frustrações. Possibilita a confiança na vida, faz dela uma experiência interessante e válida, nos brinda com encontros e pessoas ao longo de nosso caminho e faz disso, oportunidade de aprendizado e crescimento. Todos os dias, quando acordamos, refazemos o contato com este mundo e com estes outros e é bom acreditar que isto tudo, vale a pena.

“Uma relação de amor, de bem querer, é aquela em que a estabilidade pode ser refeita.”

Aquele abraço!

domingo, 14 de dezembro de 2014

O primeiro passo na direção do amor


Todo caminho por mais longo que se apresente, começa sempre com um primeiro passo. Se você aceitou percorrer comigo esta trilha, já partimos juntos para nossa caminhada. Sem a menor pretensão de fazer o blog parecer um programa de autoajuda, onde pode parecer que tenho para vocês, uma receita pronta de como alcançar o amor, quero propor outro modelo e convidá-lo a sugerir uma direção para nossos caminhos, enviando perguntas, falando sobre suas dúvidas e assim, quem sabe, possamos nos aventurar a novas descobertas e até, mudar a direção de nosso destino.
Sua companhia é uma forma de reconhecimento. Um reconhecimento de sua parte em relação a mim e a ao blog. E um reconhecimento meu, por você, porque quando me sento para escrever, escolho a melhor maneira para lhe falar. Existe um cuidado, no modo como configuro meus pensamentos, com a intenção firme de alcançar sua compreensão e desta forma transmitir alguns conceitos psicanalíticos, que tenham utilidade prática em seu cotidiano e que, portanto, façam diferença em sua vida. Este reconhecimento mútuo é em grande medida uma busca pelo direito de pertencimento, como um passe para fazer parte de um grupo, como um aval para ser aceito como um membro de uma fraternidade. A aceitação, resultante do ato de ser reconhecido, é como uma demonstração de afeto, no sentido de que eu te reconheço, te aceito e te acolho como igual, logo, há uma possibilidade de empatia entre nós. Abre-se uma porta para uma relação entre você e eu.

E de onde vem a necessidade deste reconhecimento, deste acolhimento?
Esta é uma necessidade básica natural?
Nascemos com este desejo?
Não, nós não nascemos desejando amor, carinho e atenção. Nem sequer nascemos desejando qualquer outra coisa e nem temos uma vaga ideia do que é o amor. E mais, não nascemos amando. Mas podemos nascer sendo amados e isto é que vai fazer toda a diferença. Ouvi de um amigo certa vez, uma frase que me permanece na memória, mas que desconheço sua autoria:
“Deus Pai nos concebeu com amor, por amor e para o amor.”

Mesmo sendo amparado pelo amor Divino (para os que assim creem) e pelo amor dos nossos pais, o parto é para todos nós que sobrevivemos a ele, um trauma, sem exceções. Passamos do estado líquido para o gasoso, do não peso, para o peso. Deixamos uma condição de ‘autonomia’ e passamos a um estado de total dependência. No útero, o organismo da mãe fornecia as condições vitais necessárias a nossa sobrevivência e após nosso nascimento, todos esses cuidados ficam na dependência desta presença que se impõe em habilidades nos cuidados com o recém-nascido, na disposição e doação desta maternagem. Tudo isto depende intrinsecamente do reconhecimento e aceitação deste bebê por esta mãe ou por alguém que se disponha a exercer este papel. Sentiremos necessidade deste primeiro acolhimento depois de qualquer ruptura, necessitaremos de um tempo para nos refazer, precisaremos novamente deste aconchego, como no encontro com o colo de nossa mãe.

Vou abrir aqui um parêntese, porque me lembrei de uma reportagem que assisti nesta semana sobre algumas tribos indígenas brasileiras, que ainda se mantém em completo afastamento da civilização, onde alguns costumes começam a suscitar questões complexas, por estarem em desacordo com as leis vigentes no país. Uma delas é a prática do infanticídio, onde a índia parturiente, na hora de dar a luz, embrenha sozinha na mata e após o nascimento do bebê, ela mesma o examina com a finalidade de constatar sua completa saúde física e mental. No caso de haver alguma suspeita de uma anomalia ou na evidência de qualquer defeito físico, ela o mata ou o abandona na floresta e volta sozinha para a tribo, que a recebe como se não houvesse acontecido nada e ninguém mais toca no assunto, porque tem se a crença de que, um bebê doente pode atrair o mal para toda a comunidade indígena. Mas se a mãe o examina e não percebe nenhum problema, ela então, o amamenta e depois deste ato determinante, aquela criança se torna um membro aceito por todos os outros. Este é o sinal, o signo que determina seu ingresso na tribo, logo a visão de uma mãe amamentando seu filho na aldeia, é sinal de seu reconhecimento e aceitação, a confirmação de seu pertencimento ao grupo, como igual, é antes de tudo sua garantia de vida, de sobrevivência.

Esta é uma prática também na nossa civilização. Logo após o nascimento, o bebê é colocado no seio da mãe, para a primeira amamentação, ainda na sala de recuperação. São nestes primeiros contatos entre mãe e filho, nos primeiros cuidados e troca de olhares, que começa a surgir uma empatia, uma forma de comunicação singular, onde a mãe percebe as necessidades da criança. É no atendimento das demandas deste bebê que vai se configurando um vínculo amoroso. A mãe conhece e distingue um choro de fome, de um choro de sono ou desconforto e apesar de não haver compreensão por parte do recém-nascido quanto às palavras, ele percebe a entonação e a musicalidade da voz usada pela mãe enquanto ela lhe dispensa cuidados e carinhos. Ele se sente acolhido, quando seus sons de bebê são repetidos pelos pais, pelos irmãos, pelos cuidadores. Todos os sentidos vão sendo ativados de uma forma marcante e irão imprimir um registro psíquico significante, que será reativado a cada lembrança boa que surgir ao longo da vida do sujeito, remetendo-o a uma época muito primitiva de sua existência. O som, o volume e a entonação das vozes, o cheiro da mãe, do pai, da casa. O sabor do leite materno, o olhar e o toque da mãe nos cuidados como a troca das fraldas, o banho. Todos estes detalhes serão arquivados primariamente no psiquismo da criança tornando-se parte deste registro de seu primeiro objeto de amor, a mãe. (na maioria dos casos, podendo ser substituída por qualquer outra pessoa que exerça o papel de cuidador).
Sendo assim, podemos afirmar que o amor não é natural, mas cultural e mais, que o amor é aprendido em casa com aqueles que nos dispensam seus cuidados e atenções. Logo, aprendemos a amar, sendo amados. Podemos concluir também que cada um de nós aprende o amor de um modo muito subjetivo, muito singular. Porque mesmo os irmãos que são amados e cuidados pela mesma mãe, irão viver esta experiência de uma forma diferente, em épocas e contextos diversos e ainda que sejam gêmeos cada um irá perceber este afeto e fazer os seus registros de uma maneira muito particular.

Por hora, vamos ficar por aqui.
Despeço-me de todos, com um caloroso e acolhedor abraço!





quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Caminhos para o amor


Antes de iniciar a leitura deste texto, responda a seguinte pergunta: _Quem é a pessoa mais importante de sua vida?
Qualquer que tenha sido sua resposta e por mais razões que você tenha para dizer o nome de outra pessoa, se não respondeu que a pessoa que mais lhe importa é você mesma, sinto lhe dizer: sua resposta equivocada pode colocar em risco não só você, como todos os que cruzarem o seu caminho.
Descobrimos prematuramente que recebemos os cuidados necessários a nossa sobrevivência, na medida em que somos amados. É por afeto, que somos tratados com zelo. A partir dessa premissa, aprendemos que de certa forma, o amor nos protege e nos preserva. Assim nasce nossa necessidade de sermos amados, quase que, como condição para nos mantermos íntegros física e emocionalmente.
Até que aprendemos a nos amar, antes de tudo e acima de qualquer outra pessoa. Sei que isto soa um pouco egoísta, mas compreendi que sem amor próprio, não sou só incapaz de amar outra pessoa, mas posso colocar em risco a vida de outros. Quer um exemplo bem simples? Quando dentro de uma aeronave, a comissária de bordo faz as instruções no caso de uma pane, ela alerta: “em caso de você precisar socorrer qualquer outra pessoa ao seu lado, coloque primeiro a máscara de oxigênio em você, e só depois na criança ou em outra pessoa que precisar de sua ajuda.”
Nunca havia prestado atenção a este detalhe até fazer minha primeira viagem de avião com meu filho, que tinha na época, pouco mais de um ano de idade. A primeira vista estas instruções me pareceram inadequadas, até que compreendi que se eu perdesse os sentidos por falta de oxigênio, eu provavelmente morreria e não conseguiria ajudar meu filho, que ficaria sem a proteção de alguém conhecido, de um familiar.
Depois deste episódio, sempre que eu precisava pensar em termos de segurança, fazia exatamente esta avaliação, com base nesta experiência. Se não me sentir bem, não posso ajudar a mais ninguém. Se eu não me amar, muito provavelmente não conseguirei amar outra pessoa e não estarei pronta para o exercício de me deixar ser amada. Amar sem necessidade de sobrevivência, apenas por vontade de viver as experiências amorosas em sua essência e plenitude. Não falo só do amor romântico, falo de amor na forma mais abrangente possível, em todas as formas e maneiras de amar.
Parece simples. Então, por que será que não é?
Vamos descobrir juntos, seguindo uma trilha que chamaremos de: “caminhos para o amor”.

sábado, 6 de dezembro de 2014

DUPLA IDENTIDADE – considerações finais


O título da minissérie foi bem escolhido, porque retrata exatamente o que se passa quando conhecemos alguém com estes transtornos de personalidade. É como se aquela pessoa não existisse realmente, porque com o tempo percebemos que ali dentro, mora outro personagem. Na verdade, ninguém se mostra como é no início de qualquer relação e não é incomum nos descobrirmos depois de alguns anos, ao lado de alguém que de verdade, não conhecemos ou que muitas vezes, não quisemos conhecer, preferindo uma imagem de romance, recheada de fantasias de contos de fadas.

Se levarmos em consideração que somos ‘seres devir’, ou seja, sujeitos em permanente construção, teremos de nos apresentar ao outro em cada encontro. Mas guardada as devidas proporções, nada se compara as relações complicadas com psicopatas e personalidades limítrofes. Nada impede também, que tenhamos um relacionamento tumultuado mesmo com neuróticos, considerada a estrutura psíquica mais saudável. Afinal de contas, o caráter do sujeito é fundamental e não podemos confundir o diagnóstico de uma estrutura com uma falha no caráter. E por falar em diagnóstico, ele só interessa ao profissional, para que seja escolhida a conduta correta do tratamento. Todos os outros motivos perdem o real significado diante da pessoa mais importante em nossas vidas, ou seja, nós mesmos! Digo isso, porque é muito comum o paciente vir ao consultório na esperança de mudar a outra pessoa, e não, a ele mesmo. Então é bom que fique bem claro, que ninguém tem o poder de mudar ninguém, nem o psicanalista. Aliás, este não é e nem nunca foi, o propósito da psicanálise. As mudanças reais são alcançadas com enorme esforço pela pessoa, disposta a vencer seus medos, culpas, frustrações e o profissional é só um suporte como um guia para uma nova trilha, diferente daquela que muitas vezes o sujeito insiste em fazer, com uma esperança equivocada de chegar a outro lugar.

Mas voltando ao psicopata e a borderline, nenhum dos dois tem capacidade para amar, o psicopata pela falta de sentimentos, que é provocada por uma falha no sistema límbico, ele nasce, vive e morre assim. A bordeline porque o excesso de sentimentos faz com que ela confunda o amor com a necessidade de outra pessoa, que possa legitimar sua existência, que possa tamponar um vazio que consome tudo, como um buraco negro dentro de sua alma. Para o psicopata, não existe tratamento, pelo menos até o presente momento. Para a borderline, sim e com excelentes chances de melhora, quando ela se propõe a ele.

Outra coisa importante a registrar é que a estrutura psíquica se instala por volta dos 5 ou 7 anos de idade, no fechamento do ‘complexo de Édipo’ e ela não se altera. Um neurótico morre neurótico e um psicopata morre psicopata, ninguém muda de uma estrutura para outra, o que ocorre nos casos dos pacientes fronteiriços, como o ‘border’, os ‘maria vai com as outras’, os ‘peter pans’, é que eles transitam ao mesmo tempo pelas estruturas neurótica e psicótica, alternando intempestivamente seu comportamento, passando de uma pessoa culta, agradável e divertida em alguém extremamente desequilibrado em questões de minutos e geralmente, sem nenhum motivo real. São impulsivos e reagem aos seus pensamentos como se eles fossem reais. Tomam atitudes extremadas e colocam muitas vezes sua vida e de outras pessoas, em risco. Quando caem em si, se arrependem e sofrem muito, e na maioria das vezes, os resultados de suas explosões são irreversíveis, são destrutivos e em alguns momentos esta destruição volta para si mesmos. Costumam perder o estado de consciência de seus atos, ao contrario do psicopata, que tem sempre tudo meticulosamente planejado. Por isso, o border está sempre perdendo a razão, enquanto o psicopata permanece num estado de espírito inabalável, nada o tira do ‘sério’ e tudo que não vai acontecer, é ele reagir a uma agressão, a um insulto, a uma humilhação. Ele vai ser sempre o bom moço, educado e fino, incapaz de um único gesto de aparente agressividade. Esta, ele reserva aos escolhidos, para lhes apresentar sua verdadeira face do mal, um monstro na autêntica concepção da palavra. A única coisa que ele dá ao outro além de sua maldade, é sua indiferença, seu desprezo.

Como os psicopatas são 4% da população e os bordelines fazem parte de 2% de pessoas em todo mundo, é bem provável que todos nós já tenhamos cruzados com alguns deles pelos nossos caminhos e é ai, que se faz valer o nosso poder de escolha. Nossa única chance de não ter nossa vida virada de cabeça para baixo é escolher não deixar essas pessoas fazerem parte dela. A fatalidade de um encontro com um serial killer não pode ser prevista, mas podemos evitar um comportamento que atraia este tipo de gente ávida por uma manipulação. Fazer frente e confrontá-lo também é uma péssima escolha, faz com que eles se sintam atraídos pelo desafio de provarem sua supremacia, foi o que aconteceu na última cena da minissérie nesta sexta-feira passada. A psicóloga e policial, Vera, interpretada por Luana Piovani, vacilou diante de Edu. Sua vaidade e avidez por resultados a colocou em desvantagem diante da frieza e da espera paciente do prisioneiro que aguardou a hora certa para agir. Acreditando ter o domínio da situação, deixou que fossem retiradas as algemas do preso e num momento de descuido e impulsionada por suas emoções, deu as costas ao psicopata, que pegou sua arma e a rendeu, fazendo dela sua refém. Neste momento, em que as coisas parecem sair do que eles haviam previsto é que se revelam e se mostram como são, mas também são nestes momentos em que as coisas podem sair do controle e podem ocorrer tragédias.

De qualquer forma, mesmo que os acontecimentos não cheguem às estas proporções, a passagem de um psicopata ou uma borderline pela vida de alguém, vai provocar dor e certo desarranjo. Nesta hora, contar com verdadeiros amigos e conseguir o apoio da família e de pessoas de bem, vai ajudar muito e se necessário, a ajuda profissional para refazer conceitos e se libertar deste investimento equivocado. É comum que as pessoas se critiquem pelo erro, mas nesta hora é preciso reavaliar a capacidade de fazer julgamentos e aprender com o que aconteceu. Afinal, este é o propósito da vida, aprender com as experiências, o importante é não achar que é preciso dar chances para alguém que decepcionou ou mostrou um lado pouco confiável. Ao reconhecer uma pessoa dissimulada, não é preciso uma sucessão de erros, para se afastar dela. A partir do momento que alguém não nos trata como merecemos, com retidão, respeito e consideração, não é necessário estreitar laços e aprofundar a relação, o sinal é claro, não podemos fechar os olhos, nem tapar os ouvidos. Isto pode custar literalmente, muito caro. Alguns psicopatas arrasam a vida financeira de suas companheiras, gastam até o último centavo e deixam uma dívida, como herança. Eles fazem um estrago moral, sentimental e financeiro, tudo ao mesmo tempo e leva certo tempo para que a vida retome seu rumo, se não nos dispusermos a reagir e tomar as rédeas da situação em nossas mãos.

Não faço a menor ideia de quanto tempo ainda falta para o fim do seriado, mas tenho uma vaga ideia do que será seu desfecho final. A vida de muitos será arrasada pela passagem do furacão Edu, principalmente a da namorada, Ray. Ele, se não morrer, continuará matando, até ser pego. Se não fosse um assassino em série, poderia se contentar em tomar o lugar do senador, do qual é suplente, seria neste caso, um sociopata, passaria a fazer mal a toda a sociedade, desviando dinheiro, protagonizando corrupções volumosas e se tornando quem sabe, presidente!

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

BORDERLINE – Emoções sem limites


Numa proporção completamente inversa ao psicopata, o borderline é:
100% emoção e 0% razão!

Fica fácil compreender porque tantos casais se formam assim, um alimentando o transtorno do outro e muitas vezes permanecendo juntos, até que ocorra uma tragédia, nos casos mais graves. Na versão mais leve, o borderline se sujeita a sobreviver permanentemente no inferno, ofertado pelo psicopata, com uma promessa falsa de paraíso. É comum também que se sintam atraídos pelos perfeccionistas, pelos obsessivos compulsivos.
Parece exagerado? E é mesmo! A vida do borderline está frequentemente, transbordando. Levam uma vida de excessos: compram demais, gastam demais, bebem demais, o exagero é uma marca. Fazem isto, numa tentativa de anestesiar a sua dor psíquica, que é tão grande ao ponto de muitos se machucarem, se cortarem, para que a dor física suplante a outra.

Vamos às características do borderline: O próprio nome já nos dá uma ideia do que são os pacientes fronteiriços. Eles vivem no limite. Um limite entre a neurose, considerada uma estrutura ´saudável´ e a psicose, considerada mais grave, pela presença de delírios e alucinações. Um limite entre a normalidade de uma vida rotineira e o caos em que eles transformam a própria vida e a de quem se dispõe a fazer parte dela. Sendo assim, eles perdem a noção deste limite com uma facilidade muito grande e protagonizam cenas dignas de um dramalhão no melhor estilo, Nelson Rodrigues. São aquelas pessoas que numa briga ou discussão, quebram tudo. Atiram porta-retratos, jarros e tudo que estiver pela frente, ficam como dizem popularmente: cegos de raiva. Além disso, são impulsivos e não medem as consequências de seus atos, agem sempre, sem nenhuma razão. Seguem companheiros, perseguem atuais namoradas do antigo parceiro, invadem reuniões de trabalho, aparecem em festas para fazer escândalos, gritam desesperadamente pelo namorado, na porta da casa em plena madrugada, acordando toda a vizinhança e costumam atirar pedras e quebrar carros.
Sim, elas existem! São 2% da população mundial. E se arrependem muito no outro dia, porque sentem muita culpa. Eu digo, elas, porque a proporção é de cinco mulheres para cada homem e existem muitas variações na atuação. Existe também o estilo implosivo, que ao contrário desta explosão de sair destruindo tudo pelo caminho, sofre calado e se auto-destrói, com o abuso de medicamentos, drogas, álcool, sexo demais, sem nenhum critério de escolha e uma necessidade de seduzir e conquistar um número grande de parceiros, ao mesmo tempo. Isto parece lhes garantir algum afeto. “Na falta de um, terei sempre outro”. Pode se chegar ao ponto de perder tudo, saúde, família, emprego, amigos. E é claro, que a atuação também pode variar, se alternando entre um estado e outro, ora explodindo, ora implodindo. Por tudo isso, o diagnóstico muitas vezes não é correto, sendo confundido com o transtorno bipolar.

O psicopata faz mal ao outro, porque não tem nenhum sentimento. O borderline faz mal a si mesmo e ao outro, porque tem sentimentos demais, tudo nele é exagerado. Geralmente são excelentes profissionais, porque como são muito dedicados quando gostam do que fazem, costumam ser os melhores em sua área de atuação. A primeira vista, são pessoas divertidas, geralmente bem cuidadas, bonitas, cultas, sensíveis e muito agradáveis, até que a intimidade revela seu outro lado: carentes, ciumentas, extremamente possessivas, exigentes e com uma instabilidade de humor assustadora. Este transtorno de personalidade revela uma dificuldade muito grande nos relacionamentos, principalmente os íntimos.

E por que, são assim? Porque eles têm uma visão distorcida de si mesmos, uma insegurança afetiva em profusão, como se houvesse um vácuo a ser preenchido pela relação com o outro. Só assim, encontram um sentido para vida, chegando ao ponto de deixar os filhos relegados ao segundo plano e colocarem suas relações com o sexo oposto em primeiríssimo lugar. Dedicam-se tanto ao outro que assumem uma vida diferente a cada relacionamento. Quando namoram um surfista, são capazes de aprender a pegar onda, deixar os cabelos crescerem e se vestirem despojadamente, mas se o próximo namorado for um cowboy, aprendem a montar cavalos, compram chapéu e bota e viram quase outra pessoa. Tudo isso para serem muito importantes na vida do outro, que de tanto ser exigido e cobrado, com detalhes minúsculos e um humor muito variável, se sentem sufocados e não suportam a relação por muito tempo. Então acontece justamente o que o borderline não suporta de jeito nenhum, a rejeição. Este é o trágico momento em que o mundo desaba sobre ele, é quando ele enlouquece e vai atrás do parceiro, como um leão que caça sua presa. O borderline liga dez, vinte, cem vezes. Deixa uma dúzia de recados, fareja como um cão de caça e descobre tudo que ele nunca ousou procurar saber, até o endereço daquele primo que mora num sítio afastado que ninguém da família nunca soube que existia. O border vai te procurar como agulha em um palheiro e se você tentar se esconder dele, quando te encontrar vai estar tão irado, que é capaz de tudo, tudo mesmo!

A boa notícia, é que ao contrário dos psicopatas, que quase nunca procuram ajuda e quando o fazem é por exigência de alguém ou de ordem judicial, o borderline, quando adere ao tratamento, têm muitas chances de melhora. É possível conseguir um fortalecimento egoico e uma reconstituição da personalidade, auxiliado por medicação especifica, receitada por um médico especialista.

Se você percebeu alguns traços destas personalidades em você ou em alguém muito próximo, não precisa se apavorar, todos nós temos traços de todas as estruturas psíquicas e isto de certa forma é bom. Se por acaso, você se reconheceu nestas descrições com um perfil bem semelhante, e se você sofre por ser como é, seria interessante procurar um profissional da área psicanalítica para uma entrevista. De qualquer forma, a psicanálise é uma ciência que tem por finalidade tornar mais leve e tranquila sua opção de vida, seja ela qual for, mas é necessário coragem e um bom grau de inteligência cognitiva, para romper com suas amarras. De qualquer forma, alguém que se descobrir borderline vai estar acompanhado de muita gente famosa. Fazem parte desta lista: Marilyn Monroe, Amy Winehouse, Elizabeth Taylor, princesa Diana, Madonna, Britney Spears, Angelina Jolie, algumas com um fim de vida trágico, mas como eu já disse e volto repetir, nós temos sempre escolhas a fazer!
Na foto, a atriz, Débora Falabella que interpreta Ray, uma personagem com transtorno de personalidade borderline, na minissérie: Dupla Identidade, da rede Globo de televisão. Ela mantém um relacionamento, com Edu, descrito no texto anterior, personagem vivido pelo ator: Bruno Gagliasso.

...continua...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O MAL EXISTE!

Entre alguns transtornos de personalidade presentes na estrutura psíquica perversa quero destacar: os ´psicopatas´ e num limite tênue, entre a neurose e a psicose, os chamados pacientes limítrofes ou fronteiriços: os ´borderlines´. Faço isso porque, esses dois tipos de personalidades são exatamente os dos personagens da minissérie que está sendo exibida pela rede Globo de televisão, na sexta feira por volta das 23h00min, com o título de: Dupla identidade.

Os personagens representados por, Bruno Gagliasso (Edu) e pela atriz, Débora Falabella (Ray), apresentam o retrato fiel do psicopata e da borderline. E não por acaso, o psicopata escolhe uma ´border´ para se relacionar, mas exatamente pela carência presente neste transtorno, a ponto de ela se entregar sem limites a uma relação com alguém de quem ela sabe bem pouco ou quase nada.

Vamos às características de cada transtorno:
Psicopatas nascem psicopatas, eles têm uma falha no sistema límbico, detectável e comprovada em exames cerebrais. Racionalmente brilhantes, maquiavélicos, eles planejam tudo nos mínimos detalhes e tem impossibilidade de sentir afeto real, isto é, não sentem emoção, não tem sentimentos, não sentem empatia e, portanto, não se colocam no lugar do outro. Por serem extremamente inteligentes, aprendem as emoções, porque percebem que usando deste artifício, eles conseguem facilmente manipular as pessoas. São verdadeiros atores da vida real, atuam em vários papéis ao mesmo tempo: o bom funcionário, o amigo perfeito, o mais caridoso e gentil da repartição, o mais fervoroso devoto do grupo de orações e por aí afora. Tem sempre a palavra certa e o gesto exato, com a intenção de seduzir, conquistar e usar o outro para alcançar seus objetivos.

Suas metas são sempre: status, poder, diversão e prazer e eles não medem as conseqüências para chegarem onde querem. Geralmente são bem sucedidos, porque passam por cima de qualquer pessoa para obterem êxito, embora finjam sempre serem ´bonzinhos demais´. São bajuladores, falam o que todo mundo quer ouvir, se tornam nosso melhor amigo de infância, da noite para o dia, ou então, o homem dos nossos sonhos.

Numa proporção de três homens para cada mulher, atingem 4 % da população mundial e tem uma distinção entre as formas leve, moderadas e graves, estes últimos, sendo conhecidos como: `serial killers´ ou assassinos em série.

Por não sentirem culpa, nem arrependimento ou remorso, eles nunca deixam de praticar maldades e crimes e repetem suas ações e golpes, porque sentem um prazer em praticar o mal. Quase nunca se sentem ameaçados pelas autoridades ou pela lei, uma vez que eles ditam suas próprias regras. São estimulados a irem cada vez mais longe e alcançarem o inimaginável. Tem uma auto-estima exacerbada e são egocêntricos. Sabe aquele cara que chegou ao topo e continuou aplicando golpes para se tornar cada vez mais rico e poderoso? Você não entende porque uma pessoa tão bem sucedida, não se deu por satisfeito, e tanto fez até ser preso e perder tudo, este é o psicopata, ele quer sempre mais, quer chegar cada vez mais longe, quer desafiar cada vez mais a tudo e a todos. Entre eles, existem muitos políticos corruptos, líderes religiosos, médicos inescrupulosos e pedófilos incuráveis.

São predadores no exato sentido da palavra, destroem vidas e arrasam tudo por onde passam. Quando matam, o fazem com rituais e requintes de crueldade. Sentem um enorme e indescritível prazer em ver o sofrimento no outro e mentem como ninguém. Passam com enorme facilidade pelos detectores de mentira, porque sabem fingir muito bem.
Eles não se tornam psicopatas da noite para o dia, a maldade está presente desde tenra idade, onde são comuns atitudes como judiar de animais, usando de pura maldade e até de parentes próximos. Manipulam pais e mães e jogam uns contra os outros, na adolescência costumam ser protagonistas de trapaças e tramoias, levando vantagens sobre os outros. Logo na idade adulta já terão no currículo, alguns episódios dignos de notas e impossíveis de serem desprezados. Sempre bajulam pessoas importantes e se cercam de quem possa lhes oferecer vantagens, mas desprezam os subalternos e podem em algum momento ser rude com estes, mas nunca, jamais vão perder a razão. Nas prisões são reclusos exemplares, sem nunca terem se envolvidos em confusões e o bom comportamento é unanimidade. Podem ficar presos por anos, incomunicáveis, que isto não fará para eles, nenhuma diferença, pois são completamente indiferentes a qualquer outro ser humano.

São 100% razão e 0% emoção!
...continua...