sábado, 28 de outubro de 2017

Fim da relação - objeto de amor temporariamente desligado ou fora da área de cobertura

Você liga e ouve a mensagem: 'este número está temporariamente desligado ou fora da área de cobertura'... Seu coração dispara e o cérebro gira em piruetas tentando entender o porquê deste desaparecimento. Mas se a mensagem é: 'este número de telefone não existe', você literalmente pira e entra em parafusos... Acabou! E não é fácil admitir o fim de uma relação, ao menos um sai muito machucado, quando o ponto final não vem com uma explicação plausível em uma conversa franca e madura. A famosa, DR (discutindo a relação), de quem todos tem um preconceito exagerado pode facilitar a vida, mas as pessoas se sentem sem disposição para falar e ouvir. Ninguém quer encarar seu 'eu no outro'... Isto é ruim, para todos os envolvidos.

Sou totalmente a favor das DRs, se não fosse, não seria psicanalista, posto que a psicanálise é a 'cura pela fala'.

Mesmo aquela parte bem chata das discussões com o outro, é importante, pelo menos para alguma das partes. E relacionamento não é troca? O chato vai se alternando, um dia um, no outro dia, o outro. Alguns mais que os outros... (risos)

Então chega de dar voltas, vamos encarar o doloroso 'The End'

“Não se morre de dor. Enquanto há dor, também temos as forças disponíveis para combatê-la e continuar a viver.” J.D.Nasio

Se a dor da perda do objeto de amor não parece definitiva. Ou seja, se o objeto do meu amor continua existindo, mas se encontra de algum modo inacessível, o processo da vivência desta dor é um pouco distinto do enlutado, embora a saída seja a mesma.
No fim das contas, precisamos desfazer todo o investimento e ir retirando um a um todos os retalhos de nós mesmos, que fomos costurando à imagem idealizada do objeto perdido.

Como dissemos na matéria anterior, perder é um exercício muito doloroso. Isto se deve ao fato do inconsciente não esquecer uma única dor. Ele vai sobrepondo uma a outra e cada vez que nos falta algo, ficamos novamente reféns da dor primária, quando perdemos o seio e o olhar materno. Por isso, muitas vezes parecemos tão infantis diante da dor.

Em uma palestra proferida por Dr. David E. Zimerman (1930-2014), ele dizia de um fato ocorrido com uma analisanda. “Há alguns meses, aquela jovem linda e bem sucedida vinha contando sobre suas decepções amorosas com o namorado, que a cada dia se tornava menos atraente e encantador, chegando ao ponto de se referir a ele como: o babaca. A cada sessão ela se mostrava mais impaciente e disposta a se livrar daquele relacionamento que não oferecia nenhum prazer e muitos aborrecimentos. Até quem um dia, adentrou o consultório desfigurada, sem a elegância e o cuidado de sempre. Tinha os olhos inchados e vermelhos e em voz trêmula proferiu a frase: ‘Meu namorado me deixou!’ Desabou num choro de lamento e eu no alto de meus mais de oitenta anos e autorizado por minha experiência, respondi: "Que ótimo, você se livrou do babaca!”

Ao contrário do que muitos podem pensar, ele não estava sendo cruel ou insensível, ao contrário, estava sendo terapêutico! Ela chegaria àquela mesma conclusão logo adiante, mas naquele momento a dor da perda potencializada por todas as outras dores arquivadas em seu inconsciente, a impedia de raciocinar com clareza.

Não é incomum a gente sofrer exageradamente por algo que mais tarde, nos sentimos felizes em ter perdido, seja um emprego, namorado, viagem ou o que for. Mas no exato momento da perda, a dor é mesmo insuportável, a ponto de nos cegar.
E o motivo de tudo isto, é porque somos nós mesmos quem construímos uma teia que nos liga ao nosso objeto do desejo, o mesmo que nos alimenta com projeções cheias de imaginação. Ao longo do tempo em que esta relação vai se consolidando, vamos projetando um no outro, todos os nossos desejos e anseios, cheios de expectativas a se cumprirem.
À medida que a convivência vai se acentuando, vamos encobrindo as pequenas falhas com desculpas que inventamos para enganar a nós mesmos. Vamos construindo um personagem aos nossos moldes, que passa a ter muito mais de nós do que daquele que verdadeiramente desconhecemos. Perder este personagem é perder um pedaço de nós. E se este personagem, tão nosso, tão nós, agora se dedica a outro, é ainda mais doloroso. Eu poderia voltar a falar sobre as ‘fantasias inconscientes’ e sobre como vamos vestindo o outro com nossos ‘retalhos’, tecidos e bordados com imaginações, projeções, idealizações, mas o texto ficaria muito longo e já falamos sobre isto em matérias anteriores a esta.

Então vamos enfrentar a dor de peito aberto, porque não há mesmo outro remédio... A não ser o tempo!

A reação imediata a uma dor insuportável é um grito, que vamos substituindo por palavras. Falar de sua dor é um excelente alento, mas escolha bem seu interlocutor. Não há necessidade de ser um ‘expert’ no assunto, mas é bom que seja alguém leal e discreto.
E por que falar desta dor? A resposta é bem simples: porque é só na dor, que se encontra aquele, que não está mais aqui.
Falar... Falar... Falar... Até que se esgote a mágoa, a dor, a ausência, o não dito, o não compreendido. Até que eu desconstrua e desfaça tudo o que bordei sobre a pele do outro. Até que vá se amenizando... Até passar, porque acredite, passa! Mas não será a última vez, amar dói! E não existe um antídoto, vacina ou blindagem, acontece com você, comigo e com todo mundo.

Quem evita se entregar a uma relação por medo da dor, não está se preservando, está se ausentando do movimento que é a própria vida. E aos que emendam uma relação na outra, como forma de curar uma ferida, estão só acumulando milhas para uma dor potencializada. Uma hora a conta chega!

Então, qual seria a saída?

Não existe uma fórmula mágica, quem se entrega ao amor, assume os riscos. Mas podemos dizer que manter certa independência é um bom caminho.
Daqui em diante, me ausento do posto de psicanalista e me coloco em lugar comum.

A discrição nas relações é mais saudável. Fazer declarações apaixonadas em redes sociais me parece um grito de desespero, como último suspiro, um sinal de que: 'o gato subiu no telhado’. Ao contrário das relações de amizade e de laços familiares, as relações amorosas em média são menos duradouras e encarar as pessoas depois de um: ‘Te amo pra sempre’, seguido de um fim dramático na relação é meio desconcertante.

Conservar atividades independentes do parceiro e ter amigos incomuns, também é uma opção interessante. Quando o ciclo de convivência é o mesmo na totalidade, o assunto será sempre, o fim do relacionamento.

Trabalhar juntos é a pior escolha, porque o trabalho é uma ocupação terapêutica, pelo fato de que produzir algo e se sentir útil faz muito bem para o ego, que precisa ser fortalecido com o que há de mais autêntico e verdadeiro, neste momento.

Conservar interesse por coisas, lugares, cursos diferentes do outro também é importante. Aprender coisas novas e experimentar algo inédito é uma excelente pedida. Enfim, se você se conservar inteiro, será mais fácil se despedir daquele personagem que você criou e construiu com seus pedacinhos dourados. E quem sabe depois de algum tempo, possa surgir uma relação de amizade, mais autêntica e menos fantasiosa.

Em resumo, tenha uma vida interessante e mantenha em você, o foco principal.

Você é a pessoa mais importante de sua vida!






sábado, 21 de outubro de 2017

Luto – a perda de nosso objeto de amor



O maior medo do ser humano consiste no fim do seu desejo!

Desejo este que tem como objetivo, a satisfação, que permite a descarga da energia excedente em nossos neurônios, além do que é considerado suportável.
Não haverá jamais uma descarga completa. Ao contrário do que se possa imaginar, seria desastroso se houvesse.

É importante mencionar também, que o desejo é a cura para nossas angústias.

O que estabiliza o aparelho psíquico é a insatisfação na medida suportável. Se ela ao contrário for grande ou se a satisfação é exacerbada, nosso desejo perde seu eixo de equilíbrio e a dor aparece. Este desequilíbrio no eixo central desejante é um quadro muito próximo do que vem a ser o transtorno bipolar ou maníaco-depressivo.
Para organizar nosso desejo elegemos um objeto de amor e depositamos nele, uma grande parte inconsciente de nós mesmos. (falamos sobre isto na matéria: A escolha do ser amado).

Mas o que acontece quando perdemos nosso objeto de amor?

Perder é um exercício difícil ao longo de toda nossa existência. Perdemos o seio da mãe e desde então, nossas perdas vem se sobrepondo já que o inconsciente conserva a dor, ele não a esquece.

O amado é considerado insubstituível, sempre lhe atribuímos um valor superestimado, se ele desaparece, esta convicção se torna ainda mais dolorosa. Se o desaparecimento é provocado pela sua morte, o caráter definitivo de sua ausência dá início ao longo caminho do luto.
O luto é o aprendizado de uma vida marcada pela ausência.

Em psicanálise dizemos que: “A imagem do objeto perdido, sua sombra recaí sobre o eu e encobre parte dele”.

A identificação com o objeto perdido é uma reação natural. Com o golpe da perda, o ego numa tentativa de preservar e conservar viva parte deste objeto que se foi, absorve traços dele. É um esforço para manter vivo, aquele que não está mais neste mundo.
Os rituais que cada um encontra, como ir à missa, ao cemitério, ao centro espírita, são maneiras de buscar um consolo, um alívio para a dor. É como uma maneira para dizer a si mesmo que: “apesar de ele não estar mais aqui, se encontra vivo, dentro de mim”.

Geralmente o luto é um longo e inevitável caminho, podendo durar semanas, meses, anos ou uma vida inteira, se ele se tornar crônico. Não há uma regra e um modo de prever sua duração, dependerá de cada um e de sua singularidade. Ele começa com a dor da perda de um ente querido e termina com uma aceitação serena de sua ausência física.
É o aprendizado da convivência com esta falta permanente e definitiva.

No luto, além da dor da perda, podemos sentir ódio contra o morto e também culpa, por sentir este ódio. E todas estas reações tem uma única intenção: manter viva a imagem mental do desaparecido, como se a lembrança pudesse compensar de alguma forma a ausência real. Conservar de algum modo estes sentimentos, me garante a presença do ente querido. Mas é necessário que seja feito o ‘trabalho do luto’, para que esta dor não se eternize, tornando crônico, este estado doloroso.

Geralmente o luto possui cinco estágios:

- NEGAÇÃO é a primeira reação e a mais dolorosa. É comum a pessoa se isolar e não querer tocar no assunto ou não encarar nada que deixe claro, este fato incontestável. A recusa em admitir a perda pode provocar alucinações nos enlutados. É comum relatos de pessoas que ouvem passos, vozes ou mesmo que veem imagens dos entes falecidos.

- RAIVA vem logo a seguir, surge um sentimento de revolta, um descontrole emocional, muitos ressentimentos. O sujeito se sente injustiçado e é comum a pessoa se perguntar: Por que comigo? Se existem tantas pessoas ruins no mundo, porque elas não estão sofrendo em meu lugar ou não morreram no lugar do meu objeto de amor?

- BARGANHA. É uma fase de negociação, principalmente com Deus. Como se houvesse uma maneira de fazer algo para se redimir e reverter o acontecido. Surgem pensamentos como: ‘Se eu tivesse sido uma pessoa melhor’... Surgem as promessas, pactos, sacrifícios e acordos, numa tentativa de que tudo volte a ser como antes. É comum a pessoa se portar de forma mais humilde, mais gentil.

- DEPRESSÃO é a fase onde a pessoa fica mais introspectiva, se isola e sente-se mais melancólica. Finalmente admite sua impotência diante dos fatos e sabe que a vida terá que seguir apesar de sua perda. Sentimentos de desânimo, apatia e tristeza são comuns.

- ACEITAÇÃO é o estágio que determina o fim do desespero. A realidade se impõe, a pessoa consegue enxergar os fatos como realmente são. Não há mais a negação e nem a revolta. É o fim das negociações e o estado de depressão é substituído pela aceitação, o sujeito está pronto para aceitar por fim, sua perda.

As fases podem ocorrer em outra ordem e podem pular algum estágio, mas haverá ao menos dois destes, segundo a psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross.
Aceitar o ciclo da vida: nascer, crescer, reproduzir e morrer não é tarefa tão simples, como a biologia expõe em livros. Quando o trauma da perda atravessa nosso caminho, precisamos de ajuda para retomar nossos planos e reesignificar nossa vida, que deverá seguir sempre adiante a despeito de toda e qualquer dor.
Todo o investimento feito em direção ao objeto de amor precisa ser retirado, preservando nosso ego. Todos os traços inconscientes depositados no objeto precisam voltar ao seu ponto de origem, intactos, para que o sujeito consiga direcionar novamente seu desejo para outro objeto.

Na próxima matéria vamos falar da perda de um objeto de amor, que permanece vivo, embora não esteja disponível ou acessível.