quarta-feira, 4 de março de 2015

A escolha do ser amado

Já mencionei minha decepção ao descobrir que a paixão obedece a uma reação química do corpo físico. Ela se instala em nosso cérebro em apenas seis milésimos de segundos, antes que o córtex pré-frontal tenha alguma ação para promover julgamentos e barramentos. Não é raro ver casais estranhíssimos morrendo de amores por ai! E não censure ninguém, porque pode acontecer a qualquer um de nós. Namorar o esquisitão da turma pode ser bem compreensível mesmo para a garota mais descolada do pedaço.
É claro que esta escolha não é aleatória, algum gatilho foi disparado vindo do primeiro objeto de amor em sua direção. Pode ser a voz, o cheiro, o jeito de falar, de andar, um traço da personalidade ou vários e até a aparência física. Não é por acaso que o perfil das namoradas é sempre o mesmo e lembram sempre a mamãe ou que também podem ser exatamente o oposto dela, o que não deixa de apontar na mesma direção, porque a negação é tão somente um mecanismo de defesa.

Mas afinal, quem é este a quem eu dedico o meu amor, considerando-o único e insubstituível? A resposta pode parecer confusa, mas é exatamente esta: “É um ser misto, composto ao mesmo tempo por este ser vivo e definido que se encontra diante de mim e pelo seu duplo interno impresso em mim.”

O amor passa pela transformação de um ser exterior em um duplo interior, que passa a fazer parte de nós mesmos. Freud dizia que o ser amado é acima de tudo um personagem psíquico, diferente da pessoa real. Ele é antes de tudo, uma parte ignorada e inconsciente de nós mesmos. Lacan encontra em seus matemas, uma expressão: ‘objeto a’, para designar o que nós ignoramos desta presença do outro amado em nós, este duplo psíquico que se funde ao ego, se a pessoa do amado nos deixa definitivamente. Mas ainda não vamos falar da dor, vamos por ora, falar de amor. Vamos descobrir como construímos com imagens e representações simbólicas, o nosso amado.

É comum atribuirmos ao nosso eleito o poder de satisfazer nossos desejos e nos proporcionar prazer. Nesta ilusão, demoramos um tantinho até perceber que sua presença em nossa vida traz também insatisfação. Ao mesmo tempo em que ele acende nossos desejos, não pode e não consegue satisfazê-los em sua plenitude. E mais que isso, sendo neurótico, ele também não quer realizá-los. Ele é ao mesmo tempo o excitante do meu desejo e o objeto que só o satisfaz parcialmente. Começa a construção de um duplo interno, aquele que ‘eu imagino’ que poderá me satisfazer plenamente. Embora isso não seja possível, lá vamos nós mais uma vez, colar figurinhas em cima do nosso eleito, tentando transformá-lo no sujeito perfeito. Mudamos seu corte de cabelo, corrigimos o seu sotaque e vamos aos poucos trazendo imagens de representações muitos particulares de nós mesmos e colando sobre este outro. Não se engane ele também está construindo você. E assim, o nosso eleito vai se tornando um duplo interno, em parte costumizado por nós, em parte nós mesmos, costurados em bordados a ele. E o que é mais confuso ainda, nós o impregnamos de uma parte nossa, que nós mesmos desconhecemos, pois se trata de inconsciente puro. Podemos assim, dizer que somos seis ao todo; o ele, o ele desconhecido, o eu desconhecido nele. E o eu, o eu desconhecido e o ele desconhecido em mim. Não é muita gente pra um casal só? Não,...existem muitos mais outros do que nossa vã filosofia possa imaginar! (pausa para risos). Sei que posso parecer irônica, mas é que o bom humor é essencial para não levarmos tudo tão a sério.

O amor sem alegria, não me interessa. E a você?
Vou me despedir com esta pergunta, pense sobre isto! Abraços e até.

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