sábado, 28 de fevereiro de 2015

A busca pelo objeto de amor

Ao descobrir que a paixão é em grande medida uma reação química, que acomete nosso corpo físico, senti minha porção romântica desfalecer como se recebesse um golpe de traição. Um golpe em minhas ilusões que cultivei durante tanto tempo e que povoaram meus sonhos desde a juventude. Ao contrário do que imaginei que pudesse acontecer daquele instante em diante, mediante aquela informação tão traumática quanto o fato de eu haver descoberto na infância, que Papai Noel não existe, meus horizontes se ampliaram. O que ocorreu, foi algo próximo de uma libertação, me senti mais confiante, segura e pronta para viver as experiências amorosas. Perder as ilusões é terapêutico, este véu pode encobrir pontos importantes para quem quer viver de peito aberto suas relações e pode dificultar escolhas acertadas e determinantes para nossa vida.

Então vamos nos aprofundar na teoria psicanalítica em busca do caminho do amor, vamos desvendar esta trilha e descobrir como e porque ele acontece.

Nosso sistema psíquico é regido pelo ‘Princípio do Prazer’. Apesar de o nome sugerir outra coisa, o objetivo deste princípio é a evitação da dor, uma dor psíquica (... que dói não sei como, e vem não sei de onde, mas que dói muito!). Esta dor geralmente descrita assim nasce do desconforto de tensões que ocorrem no psiquismo, provenientes de um acúmulo de energia neuronal e muitas vezes podem se tornar crônicas e insuportáveis, se não tratadas. Vamos entender como isto ocorre: Nossos neurônios são catexizados com energia, quando esta energia se acumula, tornando-se excessiva, é necessário que ocorra uma descarga para que o psiquismo se mantenha numa constância. Entra em cena, o ‘Princípio da Constância’, que faz com que nossos neurônios procurem sempre trabalhar num esquema de economia neuronal, por isso muitas vezes optamos pelos caminhos já conhecidos e anteriormente percorridos, evitando o risco de trilhas novas e desconhecidas. Existe ainda outro motivo para agirmos assim, se chama: ‘Retorno do Recalque’, mas falaremos sobre ele em outro texto. Como a energia liberada na descarga dos neurônios nunca é completa, nosso psiquismo permanece basicamente submetido ao desprazer. Enquanto este estado permanente nós chamaremos de ‘desprazer’, nomearemos esta descarga incompleta de ‘prazer parcial’.

Para uma melhor compreensão, vamos fazer uso do termo, ’desejo’. O desejo é uma tensão em movimento orientada para um alvo ideal, com o objetivo único de alcançar o prazer absoluto, ou em outras palavras, a descarga total da energia que reveste os neurônios. Como esta descarga total é impossível de ser realizada, podemos concluir que nenhum de nossos desejos será realizado em sua plenitude, sempre restando algo a desejar. Vai haver sempre a ‘falta’ de algo que não se concluiu e que não se completou. Que não preencheu todo o vazio.

É aqui que você pensa que morreram todas suas chances de felicidade, a boa notícia é que você está totalmente enganado. Ao contrário da tragédia que isto pode parecer anunciar, esta é nossa salvação, pois ao longo de nossa existência estaremos felizmente em estado de carência. Digo felizmente, porque esta carência, vazio sempre futuro que atiça o desejo, é sinônimo de vida. É a força que nos põe de pé e nos lança aos desafios e ainda, o desejo é o único remédio contra a angústia. Para representar esta insatisfação que instiga o desejo, vamos imaginar um buraco, situado bem no centro de nosso ser em torno do qual, gravitam nossos desejos. O vazio futuro que se apresenta incessante não está em outro lugar, se não, dentro de nós mesmos. Assim, a direção do nosso desejo não é uma linha no horizonte em qualquer direção, mas um aspiral girando ininterruptamente em torno de um vazio central que atrai e faz circular o movimento desejante dentro de cada um de nós.
Sem a carência, que é o núcleo da insatisfação que atrai este movimento circular do desejo, só haveria dor. Esta insatisfação que eu suporto, faz vivo o desejo que estabiliza o aparelho psíquico e me mantém equilibrado. Se a insatisfação é exacerbada ou se a satisfação se torna transbordante, o desejo perde seu eixo de equilíbrio e a dor aparece, é o que acontece com o transtorno da bipolaridade, por exemplo. Assim sendo, certo grau de insatisfação se faz necessário para o perfeito funcionamento de nosso aparelho psíquico. Mas como preservar a carência necessária e ao mesmo tempo mantê-la no limite do tolerável? É neste momento que surge a busca pelo objeto de amor, o eleito para se colocar como polo organizador do meu desejo.

Mas este é um assunto para nosso próximo encontro, despeço-me com um abraço e um brado vibrante a Sigmund Freud, “VOCÊ É O CARA!”


3 comentários:

  1. Maria Cláudia
    Sou apenas um biólogo, sem o conhecimento dos aspectos profundos da mente, mas parabenizo-a pelo trabalho. Cláudio.

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    1. Olá, Cláudio! Seja bem vindo ao blog, agradeço suas palavras. A intenção do blog é justamente falar de psicanálise com todos os que acreditam nesta ciência e que como eu, creem que ela pode contribuir para diminuir nossos receios, inquietações e culpas. Espero que nos dê o prazer de sua vinda por aqui, muitas outras vezes!

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