A popularidade deste conceito freudiano trouxe mal entendidos a teoria edipiana, que é fundamental para a compreensão de outras teorias dentro da psicanálise, como o modelo estrutural psíquico e a presença de um juiz censor dentro de nossa mente, o ‘SUPEREGO’, aquela voz que diz dos perigos e das culpas que carregamos. Então vamos por partes, porque este assunto ‘dá panos pra mangas’.
Vamos voltar à Viena, no fim do séc. IXX, numa Europa repressora, principalmente no que diz respeito à sexualidade. É bom que fique bem claro que o termo ‘sexualidade’ tem um significado que vai muito além do ato sexual. Diz respeito a todo contato entre duas ou mais pessoas e envolve todas as relações humanas. Não podemos negar que seduzimos ou pelo menos, tentamos seduzir a todos que de alguma forma fazem parte do nosso ciclo de convivência, e até mesmo pessoas que nunca vimos e talvez não voltemos a ver, como o atendente do balcão de informações ou a vendedora da loja de cosméticos. Tudo isso com a intenção de conseguirmos sua atenção para que nossos desejos sejam atendidos e satisfeitos a contento. É exatamente isto que o bebê aprende antes de qualquer outra coisa, seduzir para conseguir realizar suas vontades. Esta sedução é um exercício de sua sexualidade e estará presente também no seu encontro para o sexo em seu período fálico, que possivelmente se dará entre a adolescência e a fase adulta. Mas isso não quer dizer que seus impulsos libidinais, presentes na pulsão de vida, não estejam ativos desde pouca idade, assim como sua curiosidade, para iniciar precocemente as investigações e construções de suas teses sobre todos os assuntos que ganharem sua atenção.
Para esta compreensão, faço aqui um registro sobre a pulsão, que tem sua fonte no corpo e é uma força constante, desde o nascimento até a morte e que por ter sua origem endógena, ou seja, em estímulos internos, não há como ser controlada ou passível de fuga. Ela não cessa. Vou dar um exemplo de um estímulo externo: se a temperatura cair, vou sentir frio, mas posso controlar usando roupas para o inverno, pois estes estímulos vêm de fora do meu corpo, mas como controlar um estímulo que nasce dentro de mim? A sexualidade humana é pulsional e obedece a uma força constante da libido. O sexo no animal é cíclico, visando exclusivamente a reprodução. No homem, visa a satisfação de um desejo. Assim, fica facilmente compreensível que tanto os bebês, como os jovens e os idosos têm pulsões e estas o objetivo final de satisfação. E estas pulsões têm reflexos nas zonas erógenas de nosso corpo com manifestações em nossos órgãos genitais. Quando você acaricia um bebê ou mesmo quando você faz a higiene de seu corpo ele sente prazer no seu toque e muitas vezes este estímulo tem resposta em seu órgão genital, o que é naturalmente saudável. E não é necessário que o toque seja em uma região específica, pois o maior órgão erógeno é a nossa pele, que se estende por todo nosso corpo. Mas tudo isso para aquela época era um pouco demais e antes que terminasse suas colocações sobre a teoria da sexualidade infantil, Freud foi deixado por colegas médicos e cientistas, falando sozinho e foi criticado e chamado de perverso e tarado pelos mais exaltados. Pois bem, dois séculos depois nos encontramos aqui seguindo suas trilhas e constatando a cada caso, que ele estava coberto de razões quanto a todas estas questões. E como é bonito ver o desenrolar e a dissolução do amor edipiano. Vamos a ele:
(Não farei referência à história e ao personagem da mitologia grega, Édipo. Pelo fato desta história estar acessível e para não alongar o assunto, que já é por demais, complicado).
Ao perceber que a mãe e ele (o bebê), não são a mesma pessoa, ele começa a constatar que a mãe tem desejos para além dele e que em grande medida estes desejos seguem na direção de seu pai. Ao mesmo tempo em que o bebê deseja a mãe, ele deseja também ser o desejo dela e assim, ele deseja tomar o lugar do pai. Ele deseja ainda o pai e ser também o desejo deste pai. São pulsões libidinais nas duas direções e ansiedade de castração nas mesmas vias. Quando escolhi o subtítulo: “Um triângulo de amor e medo, sem solução”, foi exatamente isso que eu queria dizer, substituindo a palavra ‘amor’ por ‘traços libidinosos’ e a palavra, ‘medo’, por ‘ansiedade de castração’. Toda criança por volta dos cinco anos de idade, não importa o sexo, sente pelo pai e pela mãe, tanto impulsos libidinosos, como também uma ansiedade de castração, justamente por saber (intuir), que a realização destas pulsões é barrada pela instauração da lei, que dita as normas e interdita o desejo. A impossibilidade da realização destes desejos faz com que este triângulo amoroso não encontre uma solução, mas que passe então por sua dissolução, que se dá da seguinte forma:
A criança na impossibilidade de possuir o pai e/ou a mãe, introjeta traços destes primeiros objetos de amor e assim, constitui o ‘SUPEREGO’, aquele juiz interno que muitas pessoas chamam de: a voz da consciência, que nos aconselha, nos protege e que às vezes por ser severo demais, nos enche de culpas. O ‘SUPEREGO’ é uma instância psíquica que limita e interdita o sujeito, são os traços e as características de nossos pais que escolhemos inconscientemente para fazer parte de nossa estrutura psíquica e que irá nos acompanhar pelo resto de nossas vidas, então é imprescindível que nosso ‘EGO’ aprenda a lidar com este ‘herdeiro do complexo de Édipo'. Alguns teóricos divergem sobre a idade em que se encerra esta triangulação, Freud acreditava que seria por volta dos sete anos de idade. Depois desta fase, a criança entra no período de latência e tem sua energia desviada para outras atividades como: esportes, artes, jogos e outros interesses, sem nenhuma conotação sexual. É uma fase que eles se dedicam com afinco e se sobressaem em algumas áreas, dependendo de suas habilidades. As meninas mostram preferência para as danças, ginásticas olímpicas, música, e os meninos, se entregam às lutas e jogos de vídeo games, tudo isso como maneira de sublimar, deslocando a energia para algo não sexual. Aos poucos a puberdade vai dando lugar a adolescência e então o complexo de Édipo retorna, próximo aos doze anos de idade, fazendo seu fechamento com a substituição do objeto. Na maioria dos casos, a menina escolhe alguém parecido com o pai e o menino encontra uma substituta para a figura materna.
Por hora, ficamos assim! Abraço.

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