sábado, 21 de outubro de 2017
Luto – a perda de nosso objeto de amor
O maior medo do ser humano consiste no fim do seu desejo!
Desejo este que tem como objetivo, a satisfação, que permite a descarga da energia excedente em nossos neurônios, além do que é considerado suportável.
Não haverá jamais uma descarga completa. Ao contrário do que se possa imaginar, seria desastroso se houvesse.
É importante mencionar também, que o desejo é a cura para nossas angústias.
O que estabiliza o aparelho psíquico é a insatisfação na medida suportável. Se ela ao contrário for grande ou se a satisfação é exacerbada, nosso desejo perde seu eixo de equilíbrio e a dor aparece. Este desequilíbrio no eixo central desejante é um quadro muito próximo do que vem a ser o transtorno bipolar ou maníaco-depressivo.
Para organizar nosso desejo elegemos um objeto de amor e depositamos nele, uma grande parte inconsciente de nós mesmos. (falamos sobre isto na matéria: A escolha do ser amado).
Mas o que acontece quando perdemos nosso objeto de amor?
Perder é um exercício difícil ao longo de toda nossa existência. Perdemos o seio da mãe e desde então, nossas perdas vem se sobrepondo já que o inconsciente conserva a dor, ele não a esquece.
O amado é considerado insubstituível, sempre lhe atribuímos um valor superestimado, se ele desaparece, esta convicção se torna ainda mais dolorosa. Se o desaparecimento é provocado pela sua morte, o caráter definitivo de sua ausência dá início ao longo caminho do luto.
O luto é o aprendizado de uma vida marcada pela ausência.
Em psicanálise dizemos que: “A imagem do objeto perdido, sua sombra recaí sobre o eu e encobre parte dele”.
A identificação com o objeto perdido é uma reação natural. Com o golpe da perda, o ego numa tentativa de preservar e conservar viva parte deste objeto que se foi, absorve traços dele. É um esforço para manter vivo, aquele que não está mais neste mundo.
Os rituais que cada um encontra, como ir à missa, ao cemitério, ao centro espírita, são maneiras de buscar um consolo, um alívio para a dor. É como uma maneira para dizer a si mesmo que: “apesar de ele não estar mais aqui, se encontra vivo, dentro de mim”.
Geralmente o luto é um longo e inevitável caminho, podendo durar semanas, meses, anos ou uma vida inteira, se ele se tornar crônico. Não há uma regra e um modo de prever sua duração, dependerá de cada um e de sua singularidade. Ele começa com a dor da perda de um ente querido e termina com uma aceitação serena de sua ausência física.
É o aprendizado da convivência com esta falta permanente e definitiva.
No luto, além da dor da perda, podemos sentir ódio contra o morto e também culpa, por sentir este ódio. E todas estas reações tem uma única intenção: manter viva a imagem mental do desaparecido, como se a lembrança pudesse compensar de alguma forma a ausência real. Conservar de algum modo estes sentimentos, me garante a presença do ente querido. Mas é necessário que seja feito o ‘trabalho do luto’, para que esta dor não se eternize, tornando crônico, este estado doloroso.
Geralmente o luto possui cinco estágios:
- NEGAÇÃO é a primeira reação e a mais dolorosa. É comum a pessoa se isolar e não querer tocar no assunto ou não encarar nada que deixe claro, este fato incontestável. A recusa em admitir a perda pode provocar alucinações nos enlutados. É comum relatos de pessoas que ouvem passos, vozes ou mesmo que veem imagens dos entes falecidos.
- RAIVA vem logo a seguir, surge um sentimento de revolta, um descontrole emocional, muitos ressentimentos. O sujeito se sente injustiçado e é comum a pessoa se perguntar: Por que comigo? Se existem tantas pessoas ruins no mundo, porque elas não estão sofrendo em meu lugar ou não morreram no lugar do meu objeto de amor?
- BARGANHA. É uma fase de negociação, principalmente com Deus. Como se houvesse uma maneira de fazer algo para se redimir e reverter o acontecido. Surgem pensamentos como: ‘Se eu tivesse sido uma pessoa melhor’... Surgem as promessas, pactos, sacrifícios e acordos, numa tentativa de que tudo volte a ser como antes. É comum a pessoa se portar de forma mais humilde, mais gentil.
- DEPRESSÃO é a fase onde a pessoa fica mais introspectiva, se isola e sente-se mais melancólica. Finalmente admite sua impotência diante dos fatos e sabe que a vida terá que seguir apesar de sua perda. Sentimentos de desânimo, apatia e tristeza são comuns.
- ACEITAÇÃO é o estágio que determina o fim do desespero. A realidade se impõe, a pessoa consegue enxergar os fatos como realmente são. Não há mais a negação e nem a revolta. É o fim das negociações e o estado de depressão é substituído pela aceitação, o sujeito está pronto para aceitar por fim, sua perda.
As fases podem ocorrer em outra ordem e podem pular algum estágio, mas haverá ao menos dois destes, segundo a psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross.
Aceitar o ciclo da vida: nascer, crescer, reproduzir e morrer não é tarefa tão simples, como a biologia expõe em livros. Quando o trauma da perda atravessa nosso caminho, precisamos de ajuda para retomar nossos planos e reesignificar nossa vida, que deverá seguir sempre adiante a despeito de toda e qualquer dor.
Todo o investimento feito em direção ao objeto de amor precisa ser retirado, preservando nosso ego. Todos os traços inconscientes depositados no objeto precisam voltar ao seu ponto de origem, intactos, para que o sujeito consiga direcionar novamente seu desejo para outro objeto.
Na próxima matéria vamos falar da perda de um objeto de amor, que permanece vivo, embora não esteja disponível ou acessível.
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