sábado, 6 de dezembro de 2014

DUPLA IDENTIDADE – considerações finais


O título da minissérie foi bem escolhido, porque retrata exatamente o que se passa quando conhecemos alguém com estes transtornos de personalidade. É como se aquela pessoa não existisse realmente, porque com o tempo percebemos que ali dentro, mora outro personagem. Na verdade, ninguém se mostra como é no início de qualquer relação e não é incomum nos descobrirmos depois de alguns anos, ao lado de alguém que de verdade, não conhecemos ou que muitas vezes, não quisemos conhecer, preferindo uma imagem de romance, recheada de fantasias de contos de fadas.

Se levarmos em consideração que somos ‘seres devir’, ou seja, sujeitos em permanente construção, teremos de nos apresentar ao outro em cada encontro. Mas guardada as devidas proporções, nada se compara as relações complicadas com psicopatas e personalidades limítrofes. Nada impede também, que tenhamos um relacionamento tumultuado mesmo com neuróticos, considerada a estrutura psíquica mais saudável. Afinal de contas, o caráter do sujeito é fundamental e não podemos confundir o diagnóstico de uma estrutura com uma falha no caráter. E por falar em diagnóstico, ele só interessa ao profissional, para que seja escolhida a conduta correta do tratamento. Todos os outros motivos perdem o real significado diante da pessoa mais importante em nossas vidas, ou seja, nós mesmos! Digo isso, porque é muito comum o paciente vir ao consultório na esperança de mudar a outra pessoa, e não, a ele mesmo. Então é bom que fique bem claro, que ninguém tem o poder de mudar ninguém, nem o psicanalista. Aliás, este não é e nem nunca foi, o propósito da psicanálise. As mudanças reais são alcançadas com enorme esforço pela pessoa, disposta a vencer seus medos, culpas, frustrações e o profissional é só um suporte como um guia para uma nova trilha, diferente daquela que muitas vezes o sujeito insiste em fazer, com uma esperança equivocada de chegar a outro lugar.

Mas voltando ao psicopata e a borderline, nenhum dos dois tem capacidade para amar, o psicopata pela falta de sentimentos, que é provocada por uma falha no sistema límbico, ele nasce, vive e morre assim. A bordeline porque o excesso de sentimentos faz com que ela confunda o amor com a necessidade de outra pessoa, que possa legitimar sua existência, que possa tamponar um vazio que consome tudo, como um buraco negro dentro de sua alma. Para o psicopata, não existe tratamento, pelo menos até o presente momento. Para a borderline, sim e com excelentes chances de melhora, quando ela se propõe a ele.

Outra coisa importante a registrar é que a estrutura psíquica se instala por volta dos 5 ou 7 anos de idade, no fechamento do ‘complexo de Édipo’ e ela não se altera. Um neurótico morre neurótico e um psicopata morre psicopata, ninguém muda de uma estrutura para outra, o que ocorre nos casos dos pacientes fronteiriços, como o ‘border’, os ‘maria vai com as outras’, os ‘peter pans’, é que eles transitam ao mesmo tempo pelas estruturas neurótica e psicótica, alternando intempestivamente seu comportamento, passando de uma pessoa culta, agradável e divertida em alguém extremamente desequilibrado em questões de minutos e geralmente, sem nenhum motivo real. São impulsivos e reagem aos seus pensamentos como se eles fossem reais. Tomam atitudes extremadas e colocam muitas vezes sua vida e de outras pessoas, em risco. Quando caem em si, se arrependem e sofrem muito, e na maioria das vezes, os resultados de suas explosões são irreversíveis, são destrutivos e em alguns momentos esta destruição volta para si mesmos. Costumam perder o estado de consciência de seus atos, ao contrario do psicopata, que tem sempre tudo meticulosamente planejado. Por isso, o border está sempre perdendo a razão, enquanto o psicopata permanece num estado de espírito inabalável, nada o tira do ‘sério’ e tudo que não vai acontecer, é ele reagir a uma agressão, a um insulto, a uma humilhação. Ele vai ser sempre o bom moço, educado e fino, incapaz de um único gesto de aparente agressividade. Esta, ele reserva aos escolhidos, para lhes apresentar sua verdadeira face do mal, um monstro na autêntica concepção da palavra. A única coisa que ele dá ao outro além de sua maldade, é sua indiferença, seu desprezo.

Como os psicopatas são 4% da população e os bordelines fazem parte de 2% de pessoas em todo mundo, é bem provável que todos nós já tenhamos cruzados com alguns deles pelos nossos caminhos e é ai, que se faz valer o nosso poder de escolha. Nossa única chance de não ter nossa vida virada de cabeça para baixo é escolher não deixar essas pessoas fazerem parte dela. A fatalidade de um encontro com um serial killer não pode ser prevista, mas podemos evitar um comportamento que atraia este tipo de gente ávida por uma manipulação. Fazer frente e confrontá-lo também é uma péssima escolha, faz com que eles se sintam atraídos pelo desafio de provarem sua supremacia, foi o que aconteceu na última cena da minissérie nesta sexta-feira passada. A psicóloga e policial, Vera, interpretada por Luana Piovani, vacilou diante de Edu. Sua vaidade e avidez por resultados a colocou em desvantagem diante da frieza e da espera paciente do prisioneiro que aguardou a hora certa para agir. Acreditando ter o domínio da situação, deixou que fossem retiradas as algemas do preso e num momento de descuido e impulsionada por suas emoções, deu as costas ao psicopata, que pegou sua arma e a rendeu, fazendo dela sua refém. Neste momento, em que as coisas parecem sair do que eles haviam previsto é que se revelam e se mostram como são, mas também são nestes momentos em que as coisas podem sair do controle e podem ocorrer tragédias.

De qualquer forma, mesmo que os acontecimentos não cheguem às estas proporções, a passagem de um psicopata ou uma borderline pela vida de alguém, vai provocar dor e certo desarranjo. Nesta hora, contar com verdadeiros amigos e conseguir o apoio da família e de pessoas de bem, vai ajudar muito e se necessário, a ajuda profissional para refazer conceitos e se libertar deste investimento equivocado. É comum que as pessoas se critiquem pelo erro, mas nesta hora é preciso reavaliar a capacidade de fazer julgamentos e aprender com o que aconteceu. Afinal, este é o propósito da vida, aprender com as experiências, o importante é não achar que é preciso dar chances para alguém que decepcionou ou mostrou um lado pouco confiável. Ao reconhecer uma pessoa dissimulada, não é preciso uma sucessão de erros, para se afastar dela. A partir do momento que alguém não nos trata como merecemos, com retidão, respeito e consideração, não é necessário estreitar laços e aprofundar a relação, o sinal é claro, não podemos fechar os olhos, nem tapar os ouvidos. Isto pode custar literalmente, muito caro. Alguns psicopatas arrasam a vida financeira de suas companheiras, gastam até o último centavo e deixam uma dívida, como herança. Eles fazem um estrago moral, sentimental e financeiro, tudo ao mesmo tempo e leva certo tempo para que a vida retome seu rumo, se não nos dispusermos a reagir e tomar as rédeas da situação em nossas mãos.

Não faço a menor ideia de quanto tempo ainda falta para o fim do seriado, mas tenho uma vaga ideia do que será seu desfecho final. A vida de muitos será arrasada pela passagem do furacão Edu, principalmente a da namorada, Ray. Ele, se não morrer, continuará matando, até ser pego. Se não fosse um assassino em série, poderia se contentar em tomar o lugar do senador, do qual é suplente, seria neste caso, um sociopata, passaria a fazer mal a toda a sociedade, desviando dinheiro, protagonizando corrupções volumosas e se tornando quem sabe, presidente!

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