domingo, 14 de dezembro de 2014
O primeiro passo na direção do amor
Todo caminho por mais longo que se apresente, começa sempre com um primeiro passo. Se você aceitou percorrer comigo esta trilha, já partimos juntos para nossa caminhada. Sem a menor pretensão de fazer o blog parecer um programa de autoajuda, onde pode parecer que tenho para vocês, uma receita pronta de como alcançar o amor, quero propor outro modelo e convidá-lo a sugerir uma direção para nossos caminhos, enviando perguntas, falando sobre suas dúvidas e assim, quem sabe, possamos nos aventurar a novas descobertas e até, mudar a direção de nosso destino.
Sua companhia é uma forma de reconhecimento. Um reconhecimento de sua parte em relação a mim e a ao blog. E um reconhecimento meu, por você, porque quando me sento para escrever, escolho a melhor maneira para lhe falar. Existe um cuidado, no modo como configuro meus pensamentos, com a intenção firme de alcançar sua compreensão e desta forma transmitir alguns conceitos psicanalíticos, que tenham utilidade prática em seu cotidiano e que, portanto, façam diferença em sua vida. Este reconhecimento mútuo é em grande medida uma busca pelo direito de pertencimento, como um passe para fazer parte de um grupo, como um aval para ser aceito como um membro de uma fraternidade. A aceitação, resultante do ato de ser reconhecido, é como uma demonstração de afeto, no sentido de que eu te reconheço, te aceito e te acolho como igual, logo, há uma possibilidade de empatia entre nós. Abre-se uma porta para uma relação entre você e eu.
E de onde vem a necessidade deste reconhecimento, deste acolhimento?
Esta é uma necessidade básica natural?
Nascemos com este desejo?
Não, nós não nascemos desejando amor, carinho e atenção. Nem sequer nascemos desejando qualquer outra coisa e nem temos uma vaga ideia do que é o amor. E mais, não nascemos amando. Mas podemos nascer sendo amados e isto é que vai fazer toda a diferença. Ouvi de um amigo certa vez, uma frase que me permanece na memória, mas que desconheço sua autoria:
“Deus Pai nos concebeu com amor, por amor e para o amor.”
Mesmo sendo amparado pelo amor Divino (para os que assim creem) e pelo amor dos nossos pais, o parto é para todos nós que sobrevivemos a ele, um trauma, sem exceções. Passamos do estado líquido para o gasoso, do não peso, para o peso. Deixamos uma condição de ‘autonomia’ e passamos a um estado de total dependência. No útero, o organismo da mãe fornecia as condições vitais necessárias a nossa sobrevivência e após nosso nascimento, todos esses cuidados ficam na dependência desta presença que se impõe em habilidades nos cuidados com o recém-nascido, na disposição e doação desta maternagem. Tudo isto depende intrinsecamente do reconhecimento e aceitação deste bebê por esta mãe ou por alguém que se disponha a exercer este papel. Sentiremos necessidade deste primeiro acolhimento depois de qualquer ruptura, necessitaremos de um tempo para nos refazer, precisaremos novamente deste aconchego, como no encontro com o colo de nossa mãe.
Vou abrir aqui um parêntese, porque me lembrei de uma reportagem que assisti nesta semana sobre algumas tribos indígenas brasileiras, que ainda se mantém em completo afastamento da civilização, onde alguns costumes começam a suscitar questões complexas, por estarem em desacordo com as leis vigentes no país. Uma delas é a prática do infanticídio, onde a índia parturiente, na hora de dar a luz, embrenha sozinha na mata e após o nascimento do bebê, ela mesma o examina com a finalidade de constatar sua completa saúde física e mental. No caso de haver alguma suspeita de uma anomalia ou na evidência de qualquer defeito físico, ela o mata ou o abandona na floresta e volta sozinha para a tribo, que a recebe como se não houvesse acontecido nada e ninguém mais toca no assunto, porque tem se a crença de que, um bebê doente pode atrair o mal para toda a comunidade indígena. Mas se a mãe o examina e não percebe nenhum problema, ela então, o amamenta e depois deste ato determinante, aquela criança se torna um membro aceito por todos os outros. Este é o sinal, o signo que determina seu ingresso na tribo, logo a visão de uma mãe amamentando seu filho na aldeia, é sinal de seu reconhecimento e aceitação, a confirmação de seu pertencimento ao grupo, como igual, é antes de tudo sua garantia de vida, de sobrevivência.
Esta é uma prática também na nossa civilização. Logo após o nascimento, o bebê é colocado no seio da mãe, para a primeira amamentação, ainda na sala de recuperação. São nestes primeiros contatos entre mãe e filho, nos primeiros cuidados e troca de olhares, que começa a surgir uma empatia, uma forma de comunicação singular, onde a mãe percebe as necessidades da criança. É no atendimento das demandas deste bebê que vai se configurando um vínculo amoroso. A mãe conhece e distingue um choro de fome, de um choro de sono ou desconforto e apesar de não haver compreensão por parte do recém-nascido quanto às palavras, ele percebe a entonação e a musicalidade da voz usada pela mãe enquanto ela lhe dispensa cuidados e carinhos. Ele se sente acolhido, quando seus sons de bebê são repetidos pelos pais, pelos irmãos, pelos cuidadores. Todos os sentidos vão sendo ativados de uma forma marcante e irão imprimir um registro psíquico significante, que será reativado a cada lembrança boa que surgir ao longo da vida do sujeito, remetendo-o a uma época muito primitiva de sua existência. O som, o volume e a entonação das vozes, o cheiro da mãe, do pai, da casa. O sabor do leite materno, o olhar e o toque da mãe nos cuidados como a troca das fraldas, o banho. Todos estes detalhes serão arquivados primariamente no psiquismo da criança tornando-se parte deste registro de seu primeiro objeto de amor, a mãe. (na maioria dos casos, podendo ser substituída por qualquer outra pessoa que exerça o papel de cuidador).
Sendo assim, podemos afirmar que o amor não é natural, mas cultural e mais, que o amor é aprendido em casa com aqueles que nos dispensam seus cuidados e atenções. Logo, aprendemos a amar, sendo amados. Podemos concluir também que cada um de nós aprende o amor de um modo muito subjetivo, muito singular. Porque mesmo os irmãos que são amados e cuidados pela mesma mãe, irão viver esta experiência de uma forma diferente, em épocas e contextos diversos e ainda que sejam gêmeos cada um irá perceber este afeto e fazer os seus registros de uma maneira muito particular.
Por hora, vamos ficar por aqui.
Despeço-me de todos, com um caloroso e acolhedor abraço!
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