quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Na trilha do amor


No texto anterior, concluímos que o amor não é natural, que se trata de uma invenção do homem, assim como os deuses, a democracia e a roda. O amor é produto da cultura humana, um dos temas mais abordados nas manifestações artísticas de forma geral, como o cinema, a literatura, música, fotografia e outras. Vimos ainda que o amor é um aprendizado, aprendemos a amar sendo amados e esta experiência acontece dentro do seio familiar mais íntimo, junto aos pais e irmãos, por exemplo. Falamos também do reconhecimento que a mãe e a família proporcionam a criança, que passa a integrar um grupo, no qual ela se sente segura e protegida.

“A relação de proteger e ser protegido, é essencial para que aconteça o amor.”

Aqui, quero abrir um espaço para comentar uma parábola infantil que acredito pode exemplificar de forma clara, este ponto. Lembram-se da estória do patinho feio? Ele nasceu com uma pelagem acinzentada, enquanto seus irmãos eram branquinhos, tinha um pescoço muito comprimido em comparação com os outros. No lago, era um desastre para nadar, todo desengonçado e por isso, ele cresceu sem o reconhecimento de seus pares, era sempre deixado de lado pela mãe e os irmãos. Vivia triste e cabisbaixo, até se deparar com um bando de filhotes de cisnes, que se pareciam muito com ele. Passou a acompanhar estes filhotes, andava e nadava junto deles. Com o tempo suas penas se tornaram negras, seu pescoço foi alongando e ele se tornou um lindo cisne negro. Era a própria figura da elegância, principalmente quando deslizava pelas águas. De triste passou a ser altivo e de tão lindo, agora causava orgulho a sua mãe e a seus irmãos, que no fundo, até sentiam uma pontinha de inveja dele. (risos)

“Só quando duas pessoas se percebem é que pode existir alegria, contentamento e amor.”

Agora vamos retomar daqui, de onde paramos, quando eu mencionei que este acolhimento inicial e esta forma de sermos cuidados e amados, fica impresso em nós e vai servir de modelo usado por toda a nossa vida em todas as futuras relações. Pois bem, vocês se lembram de eu dizer que, mesmo os irmãos, ainda que gêmeos, não irão assimilar esta experiência de uma mesma forma, com um mesmo registro, logo, cada um de nós aprende o amor, de uma maneira bem particular e diferente do outro. Tem algo mais que aprendemos com nossa mãe, no início de nossas vidas e que também seguirá esta subjetividade, trata-se da linguagem. Isto se tornará determinante em nossas vidas, porque a mãe vai nominar o mundo pra nós e vamos arquivar os registros destes signos, destas imagens, associando sentimentos em relação às palavras que vamos memorizando. Cada um de nós terá para cada palavra aprendida um valor e uma lembrança diferente e por isso, a linguagem muitas vezes se torna um ponto de falha na comunicação, mas também um ponto de possibilidade para que se alcance o outro. Nos nossos relacionamentos esperamos que este outro não só compreenda o que estamos dizendo, mas que ele também seja capaz de decifrar os sentimentos por trás de nossos discursos. Acontece que os registros nem sempre coincidem ou se harmonizam e se não houver nestes encontros um bom jogo de cintura, uma diplomacia afinada, as relações ficam comprometidas.

Quero acrescentar também a este texto uma observação quanto àquelas pessoas que não tiveram uma família estruturada como imaginamos ser ideal. Aos que não foram amparados por uma mãe suficientemente boa, como disse Donald Winnicott ou ainda aos que tiveram uma mãe tóxica, dessas que sufocam e superprotegem, aquela de quem tememos o desaparecimento, mas de quem não desejamos a presença. Seria desastroso se não fossemos capazes de superar e vencer dificuldades, não é mesmo? Mas felizmente somos em maior ou menor grau, resilientes. E o que vem a ser isto? A resiliência é um conceito emprestado pela Física e pela Engenharia, que a define assim: "propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão causadora da deformação elástica". Ex: Uma mola que você pode esticar, e que irá voltar ao seu estado normal, quando cessar o movimento. O termo migrou do mundo da física para a área comportamental. No campo das relações humanas, é compreendido como um processo que excede a simples superação de experiências, já que permite ao indivíduo sair fortalecido por elas. Muitas vezes, pessoas com uma infância difícil, se tornam adultos mais flexíveis e com uma tolerância extra, vamos dizer assim. É bom que se saiba, não existem regras em psicanálise, a subjetividade e particularidade de cada história é que se tornou o termo geral. A psicanálise é a clínica do singular, não de um modelo. É uma ciência que sempre trouxe confusão a uma ordem pré-estabelecida, razão pela qual foi proibida em países tirânicos. Onde houver ditadura, a psicanálise será excluída. Ela não prega uma visão de mundo, ela ao contrário, coloca em questões, todas as visões do mundo, ela fala de uma felicidade, que não conseguimos expressar em palavras, ela nos oferta, o indizível! Ela apresenta a cada sujeito, uma oportunidade e uma chance de transformar sua maneira de lidar com sua história, independente dos episódios menos felizes, das perdas e frustrações. Possibilita a confiança na vida, faz dela uma experiência interessante e válida, nos brinda com encontros e pessoas ao longo de nosso caminho e faz disso, oportunidade de aprendizado e crescimento. Todos os dias, quando acordamos, refazemos o contato com este mundo e com estes outros e é bom acreditar que isto tudo, vale a pena.

“Uma relação de amor, de bem querer, é aquela em que a estabilidade pode ser refeita.”

Aquele abraço!

3 comentários:

  1. Olá sou casada com um borderline a 30 anos, mas so descobrimos o transtorno a 1 ano, ele está se tratando. Mas eu estou perdida, ele é um border implosivo,com muitos casos e alguns amores, neste último quase perdemos todo o nosso dinheiro.

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  2. Olá sou casada com um borderline a 30 anos, mas so descobrimos o transtorno a 1 ano, ele está se tratando. Mas eu estou perdida, ele é um border implosivo,com muitos casos e alguns amores, neste último quase perdemos todo o nosso dinheiro.

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  3. Ola, Camilla! Administrar um relacionamento com um borderline não é tarefa simples. Seria interessante uma ajuda profissional, parece mais uma frase de efeito, mas a verdade é que toda mudança começa mesmo dentro de nós.
    Boa sorte e um abraço!

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